A MESA DA PALAVRA
DOMINGO SAGRADA FAMILIA – ANO A
Clausura do Ano Jubilar
Itumbiara, 28 de dezembro de 2025
“Não se perturbe o vosso coração” (Jo 14,1-7)
Caros amigos, irmãos peregrinos na esperança,
- “De esperança em esperança”.
Há um ano, o saudoso Papa Francisco houve por bem abrir o Ano Jubilar, precisamente na Noite em que a Igreja celebrava o nascimento do Filho de Deus revestido da nossa fragilidade humana. Dizia ele na ocasião: “O Jubileu abre-se para que a todos seja dada a esperança, a esperança do Evangelho, a esperança do amor, a esperança do perdão”. Fizemos uma grande peregrinação até aqui, com muitos momentos de perdão, movidos pela esperança do Evangelho nunca decepciona, porque é esperança de amor, é esperança de perdão, é esperança de paz. O Ano Santo ordinário que culminou no 2025º aniversário da encarnação do Verbo que nasceu para nós como Salvador do gênero humano e os 1700 anos do concílio de Nicéia, que pôs fim às controvérsias sobre a divindade de Jesus.
Neste ano, o Santo Padre Francisco concluiu o seu caminhar terreno. Tendo ele contemplado os exemplos luminosos da Sagrada Família e procurando imitá-la em suas virtudes familiares e em seu espírito de caridade”, Francisco foi chamado a gozar dos prêmios eternos nas alegrias da casa do Pai (cf. coleta). E cremos firmemente que depois de ter caminhado ex spe in spem, ele foi levado à beleza da visão daquele por quem suspirava.
Logo a seguir, com aquela serena paz de quem vive em Cristo, chegou sem sobressaltos o novo Papa, Leão XIV. Veio com o nome forte de Leão Magno, santo e doutor da Igreja, cujo magistério nos encanta ainda hoje com preciosas reflexões sobre o mistério da encarnação. Dele diziam os cristãos orientais: “Pedro fala pela boca de Leão”. Veio com o nome forte de Leão XIII, o Papa da Doutrina Social da Igreja, o Papa que consagrou o século XX ao Espírito Santo, o Papa da singela devoção e da profundidade profética que enfrenta as ideologias do seu tempo.
Sim, Leão XIV vem com o anúncio da Paz, com a serenidade de Leão Magno que enfrenta Átila, o Huno, (a.D. 452) ou Genserico, o Vândalo, (a.D. 455) para salvar os romanos, ele empunha a bandeira da mansidão e do Evangelho para cuidar do bem do povo de Deus e para ser arauto da Paz entre os povos. Também hoje Pedro fala pela boca deste Leão para nutrir o povo de Deus sedento de verdade e de beleza.
E nós somos testemunhas do início deste pontificado, movido pela esperança, entrando com as armas do Evangelho num combate espiritual que deixa marcas de paz na história. Assim ele nos orientou até este momento em que nos aprestamos a concluir em nossa Diocese o Ano Jubilar universal. Ao longo deste pudemos experimentar, em diversos momentos, nas pequenas peregrinações às igrejas jubilares ou nas romarias espirituais, as graças que nos aproximam do Verbo Encarnado e dos tesouros por Ele deixados à Igreja.
Só o bom Deus conhece a profusão das graças derramadas sobre a nossa Igreja de Itumbiara neste Jubileu. E com a força destas graças, continuamos em um outro jubileu, o da beleza jovial da Igreja de Itumbiara, que celebra um ano jubilar em comemoração dos 60 anos de sua criação e instalação. Deo Gratias! Gratias tibi, Deus, gratias tibi!
E se hoje encerramos o Jubileu da Esperança cheios de gratidão, continuamos “caminhando com Cristo na força do Espírito” levando “em meu corpo – a Igreja – as marcas de Cristo”. A Liturgia de hoje nos coloca no coração da Sagrada Família, no coração da Igreja nascente, para continuarmos a caminhar no Senhor.
- “Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe” (Eclo 3,3).
O Espírito do Senhor suscita a sabedoria dos povos, especialmente no povo eleito. Suscita tesouros de sabedoria sobre a vida em família, em contraste com a fragilidade de outras tradições. O texto que acabamos de ouvir, foi escrito sob inspiração por Ben-Sirac pouco antes da vinda de Cristo no primeiro Advento.
Estamos no século segundo antes de Cristo, numa época em que a cultura helenista não para de seduzir os filhos de Israel. Os judeus vão abandonando paulatinamente valores e princípios culturais e religiosos. Ben-Sirac toma da pena para escrever ao seu povo para pedir que ninguém consinta que se percam seus valores familiares, a fé de Israel e a usa identidade de povo escolhido e amado por Deus.
Acolhamos também a mensagem a respeito da beleza e do valor da sexualidade humana tal como inscrita na nossa estrutura genética e nos valores do Evangelho. Ouçamos esta carta como dirigida também a nós cristãos assolados por uma contracultura adversa aos valores da família tal como o bom Deus nos mostra na lei divina natural e revelada. E então se compreende o sentido das palavras: “Quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros. Quem honra o seu pai, terá alegria com seus próprios filhos e, no dia em que orar, será atendido” (Eclo 3,5-6).
O nosso destino eterno está atrelado às nossas opções na terra, também no campo da vida familiar e social. Nada do que vivemos é indiferente, tudo tem um valor transcendente.
III. “Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia e bondade…” (Cl 3,12)
A segunda leitura e o salmo responsorial apresentam o tema das relações familiares em consonância com a primeira, mas referindo-se especialmente ao modo de viver como família do Senhor: como comunidade eclesial.
Paulo escreve numa cultura onde os escravos, as mulheres e as crianças não contavam para nada. Na concepção dos colossenses a mulher era vista como uma espécie de propriedade que o pai passava ao marido por ocasião das núpcias. O Apóstolo, usando uma linguagem desafiadora dos costumes da época, coloca em evidência que na fé cristã não há lugar para subjugadores, mas que todos estão sujeitos uns aos outros no amor de Cristo. A mulher em relação ao marido e o marido em relação à sua esposa; os pais no que respeita aos filhos e os filhos no respeito e no amor aos pais. O amor crucificado do Senhor inocula na alma dos cristãos o antídoto para o veneno instilado pela antiga Serpente no coração das relações familiares.
Como tive ocasião de dizer ano passado, “o caminho a percorrer é o da certeza de sermos amados por Deus”. E em seguida, ressaltava as palavras do Apóstolo aos cristãos de Colossos: “Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos” (Cl 3,12). Esta certeza nos enche de uma convicção de que nossa vida deve honrar o amor do Senhor por nós. “Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro” (3,13). Mas o Apóstolo nos convida a ir além: “Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também. Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição” (3,14).
A graça do jubileu que hoje se encerra e a esperança que continuamos a celebrar no nosso jubileu diocesano, nos ajudará a conseguir – ainda que por pequenos gestos – que reine entre nós a paz da comunhão dos santos: “Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo” (3,15). E ainda conclui com uma virtude muito apreciada por nosso Senhor: “E sede agradecidos”.
- “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para oEgito!” (Mt 2,13)
Na Festa da Sagrada Família deste ano, a Liturgia nos apresenta a fidelidade de São José e Nossa Senhora nos cuidados do Menino Jesus, narrando a comovente cena da “fuga para o Egito” (cf. Mt 2, 13-15.19-23).
Na vida da Sagrada Família não faltou um tempo de provação e nós o vemos no contexto luminoso do Natal. Quando a alegria do nascimento enche a vida daquele casal, a sombra inquietante de uma ameaça mortal vem pairar sobre eles. O tormento de Herodes é o de um aprisionado por uma espécie tornozeleira espiritual, a soberba que o escraviza o medo de perder o seu trono. Sentindo-se ameaçado no seu poder, decreta a morte de todas as crianças com a idade correspondente à de Jesus.
Enquanto Deus realiza, no seu reino, o maior milagre da história, Herodes, cego pelo medo de perder o trono e os seus privilégios, não consegue ver isso. Em Belém, há luz e alegria: alguns pastores receberam o anúncio celestial e, diante do presépio, glorificaram a Deus (cf. Lc 2, 8-20), mas nada disso consegue penetrar além das fortificações do palácio real, a não ser como um eco distorcido de uma ameaça, a ser sufocada com uma violência cega.
Como lembrava hoje de manhã o Papa Leão em Roma, “é precisamente esta dureza de coração que evidencia ainda mais o valor da presença e da missão da Sagrada Família que, no mundo despótico e ganancioso que o tirano representa, é o ninho e o berço da única resposta de salvação possível: a de Deus que, em total gratuidade, se doa aos homens sem reservas nem pretensões. E o gesto de José que, obediente à voz do Senhor, põe a salvo a Esposa e o Menino, manifesta-se aqui em todo o seu significado redentor. Com efeito, no Egito, a chama do amor doméstico a que o Senhor confiou a sua presença no mundo cresce e ganha vigor para levar luz ao mundo inteiro. Enquanto contemplamos este mistério com admiração e gratidão, pensamos nas nossas famílias e na luz que elas também podem trazer à sociedade em que vivemos.
O mundo sempre tem os seus “Herodes”, os seus mitos de sucesso a qualquer custo, de poder sem escrúpulos, de bem-estar vazio e superficial, e muitas vezes paga as consequências com solidão, desespero, divisões e conflitos. Não deixemos que estas miragens sufoquem a chama do amor nas famílias cristãs. Pelo contrário, conservemos nelas os valores do Evangelho: a oração, a frequência aos sacramentos – especialmente a Confissão e a Comunhão –, os afetos saudáveis, o diálogo sincero, a fidelidade, a concretude simples e bela das palavras e dos bons gestos de cada dia. Isso irá torná-las luz de esperança para os ambientes em que vivemos, escola de amor e instrumento de salvação nas mãos de Deus
Peçamos, então, ao Pai do Céu, por intercessão de Maria e São José, que abençoe as nossas famílias e as do mundo inteiro, para que, crescendo segundo o modelo da família do seu Filho feito homem, elas sejam para todos um sinal eficaz da sua presença e da sua caridade sem fim.
E ao encerramos o Jubileu da Esperança, elevamos a Deus a nossa profunda gratidão a Deus por todas as graças alcançadas e pela renovação espiritual vivida durante o Ano Santo. Nos dispomos a ser pedras vivas de uma “Igreja viva e peregrina da esperança”, missionários da esperança.
E ao recebermos a bênção final, acolheremos o dom da Indulgência Plenária segundo as condições de costume.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

