A MESA DA PALAVRA
Domingo – XXXII Semana
Dedicação da Basílica do Latrão
Itumbiara, 9 de novembro de 2025
“Como pedras vivas, formai um templo espiritual, um sacerdócio santo” (I Pd 2,5)
Caros amigos,
I. A origem do “Natale Petri cathedra”
O calendário litúrgico nos ajuda a saborear aspectos importantes da vida cristã, que nos educam para uma melhor vivência das riquezas da nossa profissão de fé católica. Ao longo do ano temos algumas festas que nos ajudam a viver aquela suave verdade católica da co-munhão com o sucessor de Pedro. Dia 22 de fevereiro celebramos a festa da Cátedra de São Pedro. Os antigos romanos honravam a memória dos mortos e comiam junto de suas tumbas, ao redor de sua “cátedra” (uma cadeira reservada ao defunto para significar que estava presente no banquete). A partir do século IV, segundo o testemunho da “Depositio Martyrum” (354 a.D.), os cristãos de Roma começaram a honrar uma “cátedra” muito mais espiritual: a de Pedro, chefe da Igreja de Roma. A celebração atual, através do símbolo da cátedra, põe em destaque a missão de mestre e pastor conferida por Cristo a Pedro. Jesus assim o constitui – a Pedro e aos sucessores na mesma cátedra – princípio e fundamento visível da unidade da Igreja. Da fé de Pedro a Igreja recebe a firmeza e a segurança da fide-lidade a Cristo Caminho, Verdade e Vida.
Festa importante a ponto de ter o formulário da Vigília e do Dia, é a solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Pedro é o “clavígero” do reino dos Céus, pastor da santa Grei de Cristo é festejado unidamente a Paulo, Apóstolo dos Gentios, pela unidade na pai-xão sofrida por Cristo na Cidade dos mártires. Roma é mais honrada pelo sangue dos már-tires Pedro e Paulo, do que pela fugidia glória dos césares imortalizada em alguns arcos. Hoje a Igreja segue a fé do Pescador da Galiléia e o magistério de Paulo, que iluminou a profundidade do mistério de Cristo que Pedro confessara como Filho do Deus vivo. Uni-dos na efusão de sangue, completam o rosto da Igreja em comunhão com Roma e missioná-ria por todo o mundo.
Hoje, irmãos, a liturgia nos faz celebrar o aniversário da Dedicação da Basílica La-teranense, chamada “mãe e cabeça de todas as igrejas da cidade (Urbe) e do mundo (Or-be)”. Em 2008, Bento XVI explicava assim a origem da festa: “De fato, esta Basílica foi a primeira a ser construída depois do edito do imperador Constantino que, em 313, conce-deu aos cristãos a liberdade de praticar a sua religião. O mesmo imperador doou ao Papa Melquíades a antiga propriedade da família dos Lateranenses e nela fez construir a Basíli-ca, o Batistério e a “Patriarquia”, ou seja, a residência do Bispo de Roma, onde os Papas habitaram até ao período de Avinhão”.
Depois continuava falando da dedicação da Basílica celebrada pelo Papa Silvestre por volta de 324. O Templo foi então intitulado ao Santíssimo Salvador; só mais tarde, de-pois do século VI, foram acrescentados os títulos dos Santos João Batista e João Evange-lista, que deram origem à denominação mais conhecida hoje. Esta data foi comemorada inicialmente apenas pela cidade de Roma. Mais tarde, a partir de 1565, a efeméride litúrgi-ca alargou-se a todas as Igrejas de rito romano, bem como ao ambrosiano. Desta forma, honrando o edifício sagrado, pretende-se expressar amor e veneração à Igreja romana que, como afirma Santo Inácio de Antioquia, “preside na caridade” toda a comunhão católi-ca (Rm 1, 1).
II. A coleta prevista para hoje é a do aniversário da dedicação de uma Igreja. A primeira parte dessa oração é tomada da post communio do comum da dedicação de uma igreja pre-sente no missal de São Pio V. Nesta primeira parte se invoca a Deus que edifique para a glória de Sua majestade um templo eterno feito de pedras vivas e eleitas. Enquanto reco-nhecemos que se deve glorificar a majestade do Deus suplicamos confiantes que difunda na Igreja o espírito de sua graça.
A segunda parte da oração é um texto de nova composição, mas inspirado na mesma oração, que prossegue elevando um ardente pedido de graças. E segue mostrando o anelo da Igreja orante de que esta efusão da graça do Espírito faça crescer para Deus um povo fiel em vista da edificação, já aqui na terra, da Jerusalém celeste.
Neste mesmo sentido, São Cesário, Bispo de Arles (sec. VI), nos ajuda a compreen-der que pelo batismo nós fomos constituídos templos do Espírito Santo, morada do Deus altíssimo na terra, igreja do Deus vivo. Contemplando o mistério da Igreja e voltando o pensamento para a Arquibasílica do Santíssimo Salvador, dita de São João do Latrão, na catedral do Santo Padre, não podemos deixar de celebrar com exultação jubilosa e com a bênção de Cristo, o natalício daquele templo, que nos chama à comunhão de todas as Igre-jas com o sucessor de Pedro.
Nós, porém, temos de ser o verdadeiro templo vivo de Deus, pois fomos regenera-dos. Pelo primeiro nascimento, herdeiros da culpa original, éramos “vasos da ira de Deus”, conforme a dura expressão bíblica. Mas, queridos irmãos, no segundo nascimento, na re-generação pela pia batismal, pela água que sai do lado aberto do Senhor, foi-nos dado ser “vasos da sua misericórdia”. O primeiro nascimento lançou-nos na morte. O segundo, res-gatou-nos para a vida nova em Cristo Senhor.
Permitam-me uma confidência dorida de pastor e de cristão. Quantas vezes ouço críticas aos pecados da Igreja, à sujeira existente na Igreja. Muitas vezes – deixem-me in-cluir-me entre eles – talvez sem fazermos caso dos nossos próprios defeitos, das próprias manchas e sujeiras. Se a Basílica está suja, se o templo ficou imundo, talvez as pedras vi-vas não tenham ficado sem parte desse monturo. Prestemos atenção à exortação do mesmo São Cesário:
“Por isso, diletos, se queremos celebrar na alegria o natalício do templo, não deve-mos destruir em nós, pelas obras más, os templos vivos de Deus. E falarei de modo que todos compreendam: cada vez que entramos na igreja, queremos encontrá-la tal como de-vemos dispor nossas almas. Queres ver bem limpa a basílica? Não manches tua alma com as nódoas do pecado. Se desejas que a basílica seja luminosa, também Deus quer que tua alma não esteja em trevas, mas que em nós brilhe a luz das boas obras, como disse o Se-nhor, e seja glorificado aquele que está nos céus. Do mesmo modo como tu entras nesta igreja, assim quer Deus entrar em tua alma, conforme prometeu: E habitarei e andarei en-tre eles (cf. Lv 26,11.12)”.
Mas gostaria de continuar esta reflexão unido a Pedro, que sobre esta festa, em 2008, falou pela boca de Bento XVI comentando a Mesa da Palavra de Deus que a Mãe Igreja nos serve fartamente na liturgia de hoje.
III. “Somos pedras vivas de um edifício espiritual”
Era meio-dia, dia 9 de novembro de 2008. Aberta a janela do Palácio Apostólico, enfeitada com uma belíssima tapeçaria, aparece o Santo Padre para a oração do Angelus. O povo romano sempre aguarda na praça com os olhos voltados para o alto para ver e ouvir o seu Bispo. Antes da oração, Bento XVI se dirige à multidão presente na praça de São Pe-dro, com o seu proverbial dom de sabedoria e simplicidade, para explica breve mas pro-fundamente a Palavra de Deus desta solenidade. Então, com voz suave e com gentileza de bom pastor, começa dizendo que a liturgia da palavra recorda uma verdade fundamental: o templo de pedra – dizia o saudoso Papa Bento – é símbolo da Igreja viva, da comunidade cristã, que já os Apóstolos Pedro e Paulo, nas suas cartas, descreviam como “edifício espi-ritual”, construído por Deus com as “pedras vivas” que são os cristãos, sobre o único fun-damento que é Jesus Cristo, por sua vez comparado com a “pedra angular” (cf. 1 Cor 3, 9-11.16-17; 1 Pd 2, 4-8; Ef 2, 20-22).
As profecia de Ezequiel fala do Templo que coroa a colina de Sião do qual sai uma água que vai fecundando o chão por onde passa e renovando a vida no mar salgado, multi-plicando peixes. Essa água é hoje a água do batismo, a água do Jordão santificada no ba-tismo do Senhor, que a Igreja derrama nas suas pias batismais por toda a parte. Mas é Cris-to o verdadeiro templo que será destruído e que Ele mesmo reconstruirá em três dias. Da água e do sangue que escorrem do lado aberto do crucificado promana uma força tauma-túrgica que cura a humanidade das suas feridas, que a faz ressurgir da morte do pecado e das multíplices formas opressão a que o pecado nos escravizara. Agora esta água nos liber-ta. Os peixes multiplicados no mar salgado, porventura não revelam Jesus e sua missão? Não é Ele o ἰχθύς, em maiúsculas ΙΧΘΥΣ não são aquele acróstico que significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”?
Mas prossigamos acolhendo a reflexão de Bento XVI que nos ajuda a abraçar reso-lutamente o caminho para sermos pedras vivas do edifício divino, da Ecclesia. Citando o Apóstolo dos Gentios, Bento XVI prossegue o seu breve mas profundo ensinamento. “Ir-mãos, vós sois edifício de Deus”, escreve São Paulo e acrescenta: “santo é o templo de Deus, que sois vós” (1 Cor 3, 9.17).
E pensemos na beleza dos templos católicos, na beleza que devemos dar às nossas Igrejas para que arte nelas impressa evangelize, pela forma, pelas cores, pelo brilho, pela beleza. Esta beleza salva almas, salva o mundo.
A beleza e a harmonia das igrejas, destinadas a prestar louvor a Deus, convida tam-bém nós seres humanos, limitados e pecadores, a converter-nos para formar um “cosmos”, uma construção bem ordenada, cheia de beleza, em estreita comunhão com Jesus, que é o verdadeiro Santo dos Santos. Os pastores sagrados são por isso chamados a ajudar as nos-sas comunidades descobrir que se é importante dar beleza às pedras e às paredes das nos-sas igrejas, mais essencial é dar beleza às nossas almas que devem resplandecer de santi-dade mediante a vida na graça. Os sacerdotes são os cinzéis e pincéis que dão essa beleza à alma através da palavra e dos sacramentos, especialmente a confissão.
Mas esta restauração da beleza dos templos vivos acontece máxime e mais explici-tamente na liturgia eucarística. Na celebração digna, atenta e devota da Eucaristia a “ecclesía”, isto é, a comunidade dos batizados, se reúne para ouvir a Palavra de Deus e para se alimentar do Corpo e Sangue de Cristo. Em volta desta dúplice mesa a Igreja de pedras vivas edifica-se na verdade e na caridade e é plasmada interiormente pelo Espírito Santo transformando-se no que recebe, conformando-se cada vez mais com o seu Senhor Jesus Cristo. Ela mesma, se vive na unidade sincera e fraterna, torna-se assim sacrifício espiritual agradável a Deus.
Queridos amigos – concluía Bento XVI, antes de rezar com a multidão o Ângelus –, a festa de hoje celebra um mistério sempre atual: isto é, que Deus quer edificar no mundo um templo espiritual, uma comunidade que o adore em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23-24). Mas esta celebração recorda também a importância dos edifícios materiais, nos quais as comunidades se reúnem para celebrar o louvor de Deus. Cada comunidade tem, portanto, o dever de conservar com cuidado os próprios edifícios sagrados, que constituem um preci-oso património religioso e histórico. Invoquemos então a intercessão de Maria Santíssima, para que nos ajude a tornar-nos como ela, “casa de Deus”, templo vivo do seu amor.
Louvado Seja nosso Senhor Jesus Cristo.

