A MESA DA PALAVRA
Abertura do Jubileu de 60 anos da Diocese de Itumbiara
Ordenação Presbiteral de Mateus Henrique
Itumbiara, 6 de dezembro de 2025
“Em tudo dai graças”
Caros Amigos,
- “Itumbiara: 60 anos caminhando com Cristo, na força do Espírito”
Quis o Bom Deus reunir-nos hoje nesta Igreja Catedral como assembleia santa, povo sacerdotal. É um momento de rara riqueza espiritual e de incomparável beleza da vida cristã. Estamos dando início à celebração do jubileu adamantino de nossa Diocese de Itumbiara. Ademais, nesta ocasião, a Igreja de Itumbiara se dá como dom jubilar a ordenação sacerdotal de um caro irmão nosso: o Diácono Mateus Henrique.
Com a Bula Pontifícia “De Animorum Utilitate”, São Paulo VI criou a diocese de Itumbiara no dia 11 de outubro de 1966, tendo a sua ereção canônica se realizado no dia 8 de dezembro de 1966. É uma história quase sexagenária: estamos para completar “60 anos caminhando com Cristo, na força do Espírito”. Desde Dom Velloso até Dom Fernando Brochini foram sete os bispos que pastorearam esta Igreja. Rogo a Deus que me conceda a graça de a servir a diocese com o mesmo ardor missionário e dedicação dos meus venerados antecessores.
Enquanto celebramos a esperança, damos graças pelos esforços dos operários da primeira hora na edificação desta Igreja; sentimo-nos comprometidos como os operários da hora meridiana, trabalhando com amor sob o sol do meio-dia. Ao mesmo tempo e acolhemos com amor a vocação dos operários da undécima hora, que o Senhor continua a enviar para o Seu santo serviço. E firmes na esperança, não nos cansamos de dizer: Maranatha – Vem, Senhor Jesus! (1 Cor 16,22).
A proteção de nossa Padroeira Santa Rita de Cássia tem acompanhado a nossa história. Contemplando a chaga de sua testa, provocada pelo espinho que o Crucificado lhe concedeu, a nossa diocese faz próprias as palavras do Apóstolo: “Trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gal 6,17). Alegres por partilhar da sorte do Senhor, estamos bem unidos à Cruz de Jesus, proclamando em cada Eucaristia a esperança da vinda gloriosa do Senhor.
Tudo isso tem origem na mesma fonte, a fidelidade infalível de Deus, que conduz o seu povo e suscita pastores segundo o seu coração. A continuidade do sacerdócio ministerial explicita a centralidade da Eucaristia e projeta a Igreja para o seu futuro. Por isso esta celebração eucarística emprega eucológio da Missa pela Igreja, ao mesmo tempo em que louvamos a Deus com o Prefácio do Sacramento da Ordem.
- O Jubileu: recordar com gratidão, discernir com sabedoria, renovar com fidelidade.
Caros irmãos, nesta manhã de sábado, portanto, somos convidados a percorrer três movimentos espirituais: recordar com gratidão, discernir com sabedoria, renovar com fidelidade.
Recordar: “Misericórdias Domini in aeternum cantabo”. Sim, no seio desta assembleia festiva, eu “cantarei eternamente as misericórdias do Senhor” (Sl 88,2). Ao recordar nossa história, predispomos o coração a fazer memória, a olhar com gratidão as maravilhas que o Senhor tem realizado e não cessará de realizar nestas nossas terras regadas pela fé católica. Com o salmista exultamos de alegria pela grande condescendência do Senhor ao nos dar berço católico, famílias cristãs, desejos de santidade desde os inícios. O Senhor continua a nos alimentar na mesa da Palavra, no altar da Eucaristia, na comunhão dos irmãos. Ele nos dá o testemunho dos santos, o serviço dos sacerdotes, o pastoreio do Santo Padre e dos Bispos unidos na mesma profissão de fé.
Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor, que não se cansa de nos perdoar e de nos chamar para o seu seguimento. Sessenta anos de semeadura do Evangelho, de vidas entregues, de empenho em prol da justiça e da dignidade humana, da partilha fraterna dos bens temporais, em vista da comunhão nos bens eternos.
Ao par de tantos dons de Deus, também unimos às marcas de Cristo que trazemos em nossos corpos, lágrimas, renúncias, lutas, aparentes insucessos e pequenas vitórias silenciosas. Não existe Igreja particular que não seja sustentada pela misericórdia do Senhor, sempre fiel à sua Aliança. O Salmo Responsorial desta liturgia é, por isso mesmo, uma profissão de fé jubilar: “Ó Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor… Minha verdade e meu amor estão sempre com Ele” (Sl 88,2.25)
Discernir com sabedoria: A palavra de Deus ilumina os nossos passos. Na mesa da Palavra de Deus recebemos luzes, força, alimento para a alma. Ela ilumina os passos no nosso itinerário jubilar. Passos que damos para a nossa santificação. Nossa Luz é o próprio Verbo de Deus humanado que nos diviniza com a sua graça.
A primeira leitura oferece-nos uma síntese admirável do caminho cristão: “Que o Deus da paz vos santifique totalmente: que vosso espírito, vossa alma e vosso corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda do Senhor” (1Ts 5,23).
No nosso jubileu não celebraremos a instalação de uma estrutura, festejaremos a força da graça de Deus que, pela missão da Igreja, transforma as pessoas. Celebramos a vida de pessoas transformadas pela graça, por uma santidade que envolve espírito, alma e corpo. A Diocese será verdadeiramente renovada se cada fiel — começando por nós, ministros — permitir que Deus realize esta obra de purificação interior. A verdadeira face da Igreja católica se encontra lá onde há corações em contínua conversão, nos santos.
Compreende-se bem por que a segunda leitura desta santa Liturgia nos conduz a uma palavra exigente do Senhor glorificado às igrejas da Ásia. Ele denuncia a tibieza, mas também promete comunhão aos que abrirem a porta: “Se alguém ouvir a minha voz e abrir, entrarei e cearei com ele” (Ap 3,20). Nesta frase ecoa a um passo decisivo da vida cristã: permitir que Cristo entre em nossas vidas. É preciso abrir as portas a Cristo — não apenas as portas físicas dos templos, mas as portas das consciências, dos relacionamentos, dos ministérios, das realidades pastorais.
O Senhor é gentil, não arromba portas. Ele bate. É preciso ouvi-Lo. Deus não força o coração do homem; deseja ser recebido livremente. “Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão” (Eclo 15,14), para que pudesse ele mesmo procurar seu Criador e, aderindo livremente a Ele, chegar à plena e feliz perfeição (Catecismo n. 1730).
O nosso jubileu se apresenta assim com tempo favorável para escutar a voz do Senhor e abrir, antes escancarar as portas ao Redentor, permitir que Ele entre e faça nova todas as coisas, em nossas almas, em nossas comunidades. Comunidades missionárias como o é o Senhor. O Evangelho nos mostra Jesus percorrendo cidades e aldeias, ensinando, curando, consolando. E Mateus escreve: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas” (Mt 9,36).
A compaixão — σπλαγχνίζομαι — é o movimento íntimo das entranhas, próprio do amor divino. É desta compaixão que nasce o envio dos Apóstolos: “Ide e proclamai que o está próximo o reino dos Céus” (Mt 10,7). O sacerdócio nasce precisamente da compaixão de Cristo diante da miséria humana. Ele suscita novos ministros da Igreja porque Cristo continua a ver as multidões cansadas e abatidas. Ao nos configurar a Si pelo sacerdócio ministerial o Senhor continua a dizer: “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8). Eis o programa do ministério ordenado.
III. Renovar com fidelidade: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.
Queridos amigos, queridos familiares do Diac. Mateus, Sr. Walter Divino, pai, Felipe Bruno, irmão; e tia Dalva Valéria, não deixem de acompanhar o Padre Mateus na sua vida sacerdotal. Sejam gratos a Deus pela honra de ter uma vocação sacerdotal em família. Deus os abençoe pela presença amorosa e o cuidado de que cercaram Mateus até hoje. Ele é também minha família. Nossa família é grande. E nos queremos bem de verdade.
Permitam-me agora falar diretamente ao Mateus sobre o sacerdócio ministerial para o qual ele será daqui a pouco consagrado. O sacerdote fiel à sua vocação será sempre propulsor da renovação da nossa Igreja Diocesana.
Caro Mateus, ao receber a ordem sacerdotal, comece com nós mais velhos, a renovar o nosso amor ao sacerdócio ministerial. Cristo Sacerdote só será venerado em nós se formos os primeiros a respeitar a dignidade sacerdotal de que somos investidos. Nossa vida de oração, nosso testemunho de misericórdia, nosso porte consentâneo com a dignidade do nosso estado de vida, a fuga dos tratos banais ou até mesmo inconvenientes. Lembre-se que fomos configurados a Cristo, de sorte que possa dizer “Já não sou eu que vivo…”. Não se trata de exterioridade afetada, mas de uma sincera e contínua conformação com o Sumo e eterno Sacerdote.
Lembre-se de que o sacerdote é o homem a cujo coração Deus confia o seu povo e diante do qual o povo deposita suas dores e súplicas. E todos esperam que o sacerdote responda não com um humanismo superficial, mas com a caridade ardente do Coração de Cristo.
Esta caridade a encontramos na amizade com Cristo. O Papa Leão XIV, em um recente ensinamento falava da absoluta necessidade da amizade com Cristo: “Esta amizade com Cristo é o fundamento espiritual do ministério ordenado, o sentido do nosso celibato e a energia do serviço eclesial ao qual dedicamos a vida. Ela sustenta-nos nos momentos de provação e permite-nos renovar a cada dia o “sim” pronunciado no início da nossa vocação” (Discurso ao Dicastério para o Clero, 26/06/2025).
A ordenação sacerdotal não é a mera investidura em uma função religiosa. É a configuração ontológica a Cristo Cabeça e Pastor, que nos torna “embaixadores a serviço de Cristo” (2Cor 5,20). É o próprio Senhor Jesus quem escolhe “os dispensadores dos mistérios divinos, reveste-os com variedade de dons e carismas para que, sempre e em toda a parte, ofereçam o sacrifício perfeito, e edifiquem, com a palavra e os sacramentos, a Igreja peregrina e santa, comunidade da Nova Aliança e templo vivo do vosso louvor” (do Prefácio).
Configurado ao Senhor, o Sacerdote age in persona Christi capitis. Por ele, Cristo congrega na unidade, por meio dele Cristo prega e ora. Por meio dele, Cristo santifica através dos sacramentos. Você recebe hoje a habilitação sacramental para ensinar, santificar e governar, sempre unido ao seu Bispo e ao presbitério. Sua vida deve tornar-se transparência da compaixão de Cristo, testemunho da verdade, serviço humilde aos pobres, fidelidade à Igreja.
O trabalho sacerdotal é muitas vezes penoso, oculto na penumbra das suas horas de oração. Não é raro que seja incompreendido. Jamais devidamente estimado, entretanto preciosíssimo e indispensável no plano divino da nossa salvação! Por isso mesmo, no coração do sacerdote deve sempre ecoar um forte sentimento de gratidão: “In omnibus gratias agite” – “Em tudo, dai graças” (1 Ts 5,18).
O dever de gratidão pelo dom do sacerdócio se impõe a todo cristão. Em primeiro lugar gratidão para com Jesus, mas depois, também para com os que desempenham retamente esta missão sublime. Tal gratidão deve manifestar-se no reverente respeito, na filial docilidade para com os ministros de Deus, mas também na oração e no trabalho assíduo em favor das vocações e da santificação dos sacerdotes. Assim nos ensinou o próprio Jesus: “Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Mt 9,38).
“Dominus pars hereditatis meae – O Senhor é a porção de minha herança” (Sl 16,5). Ao celebrarmos estas graças do jubileu e do tesouro do sacerdócio ministerial, voltemo-nos para a Virgem Maria, Mãe da Igreja e Rainha dos Apóstolos. Supliquemos que ela proteja esta Diocese no ano jubilar e acompanhe o novo presbítero no caminho da fidelidade.
Repitamos com confiança a palavra do salmista: “O Senhor é a minha herança” (Sl 16,5). Que Ele seja a herança da nossa Diocese. Que Ele seja a herança do ministério do Padre Mateus. Que Ele seja a herança de cada um de nós.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo

