A MESA DA PALAVRA
XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 6 de setembro de 2026
“Tu ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15)
Caros amigos,
Estamos no início de setembro. Neste mês, os Bispos Católicos do Brasil, por meio da Conferência Episcopal, nos convidam a voltar com amor renovado à Sagrada Escritura. Setembro nos recorda São Jerônimo, cuja memória litúrgica celebramos no dia 30, e de quem recebemos a conhecida advertência: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo” (São Jerônimo, Comentário sobre Isaías, Prólogo). Por isso, escutemos com atenção a Palavra que acaba de ser proclamada. Nela, uma frase do Evangelho ilumina toda a Liturgia: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15). Notemos bem: o Senhor não diz que ganhamos uma discussão, nem que provamos ter razão. Diz: “ganhaste o teu irmão”. Eis o critério de toda correção cristã: não corrigimos para vencer, mas para não perder o irmão; não para nos mostrarmos melhores, mas para ajudá-lo a reencontrar o caminho de Deus.
- A verdadeira liberdade e a herança eterna
A oração da Coleta nos ajuda a compreender por que devemos cuidar uns dos outros. Pedimos a Deus que conceda aos redimidos e adotados como filhos “a verdadeira liberdade e a herança eterna” (Coleta do XXIII Domingo do Tempo Comum). A liberdade cristã não consiste em fazer simplesmente o que se quer, mas em viver como filhos de Deus, capazes de escolher o bem e de caminhar para a casa do Pai.
Daí nasce a correção fraterna. Se vejo alguém que amo aproximar-se de um perigo, não permaneço calado em nome de um falso respeito pela sua liberdade; advirto-o precisamente porque desejo que permaneça livre. Corrigir, quando necessário, é ajudar o irmão a afastar-se daquilo que o separa de Deus e da herança prometida.
Mas é preciso discernir: nem toda diferença é defeito, nem toda imperfeição deve ser corrigida, nem tudo aquilo que eu faria de outro modo constitui pecado. A correção fraterna não molda o irmão à minha imagem; ajuda-o a crescer segundo a imagem de Cristo. Antes de corrigir, convém perguntar: “Isto realmente o afasta do bem e do Senhor?” Corrigir cristãmente não é dominar a liberdade alheia, mas servi-la.
- “Eu te estabeleci como vigia” (Ez 33,7)
Essa responsabilidade aparece na primeira leitura, quando Deus diz a Ezequiel: “Eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel” (Ez 33,7). A imagem é a da sentinela sobre as muralhas: porque vê o perigo antes dos outros, torna-se responsável por advertir. Se dá o alarme, cumpre sua missão; se se cala por comodismo ou medo, Deus lhe pedirá contas desse silêncio.
A Palavra recorda que não somos responsáveis apenas pelo mal que fazemos, mas também pelo bem que, podendo e devendo fazer, deixamos de realizar. Há silêncios prudentes, mas há silêncios covardes; há silêncios que preservam a paz, e outros que preservam apenas o nosso conforto. É fácil dizer: “Cada um sabe da sua vida”. A Escritura responde: é teu irmão.
Convém, porém, compreender bem a imagem: o cristão não é fiscal da vida alheia; é sentinela do irmão. O fiscal procura a infração; a sentinela quer evitar a tragédia. Um observa para acusar; o outro vigia para proteger.
O Salmo completa a lição: “Não fecheis o coração, ouvi, hoje, a voz de Deus” (Sl 94/95). Ezequiel nos ensina a falar quando a caridade o exige; o salmo nos ensina a escutar quando Deus nos fala por intermédio de um irmão. É necessária caridade para corrigir, mas também humildade para se deixar corrigir.
III. “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor” (Rm 13,8)
São Paulo oferece o princípio que deve governar toda correção: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo” (Rm 13,8). Existe uma dívida que o cristão jamais termina de pagar: a dívida da caridade. A correção fraterna pertence a essa dívida; não a praticamos por superioridade, mas por responsabilidade no amor.
Santo Agostinho lembra que a correção deve buscar a emenda do irmão, não o seu dano (cf. Sermão 82, 7). Antes de corrigir o outro, talvez precisemos retificar a intenção com que pretendemos fazê-lo. Quero ajudar ou apenas descarregar minha irritação? Desejo aproximá-lo de Deus ou fazê-lo admitir que eu tinha razão? Uma verdade dita sem caridade pode ferir ainda mais a ferida que pretendia curar.
Há, contudo, o perigo contrário: calar a verdade em nome de uma falsa caridade. A verdade sem caridade torna-se dureza; a caridade sem verdade pode tornar-se cumplicidade. O amor cristão não chama o mal de bem, mas tampouco usa a verdade como pedra contra quem errou.
- “Vai corrigi-lo, a sós contigo” (Mt 18,15)
Nosso Senhor diz: “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo” (Mt 18,15). Há grande delicadeza nessa ordem. Jesus manda ir ao irmão: não alimentar ressentimento, não comentar o fato com terceiros, não transformar a fraqueza alheia em assunto de conversa. E manda ir a ele a sós, porque a finalidade da correção não é expor o pecador, mas recuperar o irmão.
Santo Agostinho percebe, nesse mandato, a delicadeza do Senhor: aquilo que não precisa ser exposto deve ser tratado com discrição. A humilhação desnecessária pode levar alguém, por vergonha, a defender justamente o que deveria reconhecer e abandonar (cf. Sermão 82, 4). Cristo quer curar a falta sem destruir a pessoa.
Aqui se vê a oposição entre correção fraterna e maledicência. Ambas começam no mesmo ponto: conheço uma falta do meu irmão. A maledicência fala dele; a correção fala com ele. Uma transforma a fraqueza alheia em conversa; a outra a transforma em responsabilidade, oração e ajuda.
Quantas vezes temos coragem para falar de alguém e tão pouca coragem para falar com alguém. Cristo, porém, nos manda ir ao irmão (cf. Mt 18,15). São Josemaria Escrivá chamava a correção fraterna de “uma prova de carinho sobrenatural e de confiança” (Forja, 566) e lembrava que, quando tiver de ser feita, deve estar cheia de delicadeza, de caridade, “na forma e no fundo” (Forja, 147). Por isso, o zelo nunca deve ser amargo, nem a correção ferir; a verdade cristã deve iluminar e curar, não humilhar nem esmagar (cf. Forja, 578).
Portanto, não basta ter boa intenção; é preciso escolher o momento e as palavras e, antes de tudo, rezar. Se ainda não rezei por aquele que desejo corrigir, talvez ainda não esteja preparado para corrigi-lo.
A Coleta recordou que fomos redimidos e adotados como filhos. Aquele cuja falta conheço não é apenas alguém que errou: é filho de Deus, alguém por quem Cristo derramou o seu Sangue e que, como eu, foi chamado à herança eterna. Antes do seu pecado está o seu Batismo; antes da sua falta, a sua dignidade; antes do que ele fez, aquilo que Deus fez por ele.
Agora se compreende a força da palavra de Cristo: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15). Se ao final provei que estava certo, mas perdi o irmão, que vitória foi essa? Se, ao contrário, renunciei ao orgulho, esperei o momento oportuno e o ajudei a voltar ao caminho, então verdadeiramente o ganhei.
O Evangelho prossegue indicando novos passos quando a primeira tentativa não basta e termina com a promessa: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mt 18,20). Todo o caminho da correção tende, portanto, à comunhão restaurada. A Igreja não é uma comunidade em que ninguém erra; é uma comunidade na qual ninguém deveria ser abandonado porque errou.
Sabemos, porém, quanto isso é difícil: corrigir sem orgulho, receber uma correção sem nos defendermos, dizer a verdade sem ferir e acolhê-la quando toca o nosso amor-próprio. Por isso, não basta conhecer o Evangelho; precisamos da graça para vivê-lo.
Na Confissão, antes de corrigirmos os outros, aprendemos a deixar-nos corrigir por Deus. Ali dizemos a verdade sobre os nossos pecados e descobrimos que essa verdade não nos destrói, porque vem envolvida pela misericórdia. Deus mostra a ferida para curá-la; revela a verdade para perdoar.
Na Eucaristia, receberemos Aquele que conhece todas as nossas fraquezas e não desistiu de nós. Cristo não nos corrigiu de longe: veio ao nosso encontro, reuniu-nos à mesma mesa e nos deu o seu próprio Corpo para recompor, em nós e entre nós, a comunhão ferida pelo pecado. Unidos a Ele, aprenderemos a amar o irmão o bastante para não sermos indiferentes à sua queda, e a ser humildes o bastante para permitir que outro irmão nos ajude a levantar quando formos nós a cair.
Peçamos à Virgem Maria um coração sem dureza para corrigir, sem orgulho para ser corrigido e sem malícia diante das fraquezas alheias. Em Caná, ela percebeu uma necessidade que outros ainda não haviam notado; não expôs os noivos à vergonha nem transformou a dificuldade deles em comentário. Levou-a discretamente a Jesus e indicou o caminho seguro: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Que ela nos ensine essa delicadeza: perceber a necessidade do irmão, levá-lo primeiro a Jesus na oração e ajudá-lo a escutar a voz do Senhor.
Neste Mês da Bíblia, façamos um propósito simples e concreto: abrir todos os dias a Sagrada Escritura e ler, ainda que por poucos minutos, um trecho da Palavra de Deus. E, ao sairmos desta Missa, perguntemo-nos diante do Senhor: há alguém que eu preciso procurar com caridade? Há alguma correção que eu preciso acolher com humildade? Assim, sustentados pela Palavra, pela Confissão e pela Eucaristia, caminharemos para aquilo que pedimos no início desta Missa: a verdadeira liberdade dos filhos de Deus e a herança eterna. E já ao longo desse caminho se cumprirá a palavra do Senhor: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão” (Mt 18,15).

