A MESA DA PALAVRA – Sábado da Vigília da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo – Ano A

A MESA DA PALAVRA

Sábado da Vigília da Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo – Ano A
Itumbiara, 27 de junho 2026

Amoris officium pascere” (Santo Agostinho)

Caros amigos,

Esta solene vigília prevista para a solenidade de São Pedro e São Paulo nos dá a possibilidade participar de uma liturgia que remonta já ao quarto século da história da Igreja. Nela, glorificamos a Deus que agiu com poder e força no ministério destes dois gigantes da história da Igreja nascente. Gigantes porque permanecem paradigma perpétuo do sentido da unidade a Cristo e da fidelidade missionária ao seu Evangelho.

A belíssima liturgia de hoje nos insere no coração da Igreja em sua expressão mais universal. Viemos aqui para acolher a Cristo que nos chama a viver a mesma generosa dedicação que os Santos Apóstolos ofereceram no inicio da pregação da Igreja.

Louvemos e bendigamos a Deus suplicando-Lhe os auxílios da graça para alcançarmos desde já a salvação desejada. Apreciemos as sugestões da oração da Igreja suscitadas pelo Espírito que ora em nós com gemidos inenarráveis em nossa sagrada liturgia.

  1. Senhor nosso Deus, pelos apóstolos São Pedro e São Paulo destes à vossa Igreja os fundamentos da fé. Concedei-nos, por sua intercessão, os auxílios para a salvação eterna” (Coleta).

Esta preciosa coleta faz convergir num texto sóbrio a referência de muitos textos bíblicos de todo o Novo Testamento. Sua concisão densa de conteúdo nos remete às mais antigas fontes da tradição litúrgica romana. Nela pedimos a intercessão de dois irmãos na missão de edificar a Igreja, dois irmãos que significam todo o colégio apostólico, como pedras fundamentais da fé católica e apostólica

Por isso é imperioso lembrar hoje que nós todos estamos reunidos na profissão da mesma fé apostólica, pela qual os dois santos apóstolos Pedro e Paulo que derramaram o suor e sangue. Suor pelas lides evangelizadoras, sangue porque ambos forma fieis a Cristo “usque ad effusionem sanguinis” A liturgia desta Vigília nos introduz no coração do mistério da Igreja: ela é edificada por Deus sobre o testemunho dos Apóstolos, sustentada pela graça de Cristo e enviada a todos os povos para anunciar a salvação.

Pedro e Paulo: dois homens de forte personalidade, ambos enamorados de Cristo. Dois servos incontestes do Evangelho: Pedro, o príncipe dos apóstolos, e Paulo, o doutor das nações. Os dois, diz a Igreja, ensinaram-nos a lei do Senhor. Não se trata de uma lei exterior, pesada ou distante, mas da lei nova do Evangelho, inscrita nos corações pelo Espírito Santo. Hoje a Igreja orante se entrega confiante à intercessão de ambos na esperança de obter os auxílios para a salvação eterna.

O primeiro fruto desta solene celebração é abrir o nosso coração para reconhecermos que a fé por nós professada não nasce de nós mesmos: é o depositum fidei que chegou até nós pela pelo testemunho constante da tradição apostólica.

  1. Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno,
    levanta-te e anda!
    ” (At 3,6).

A primeira leitura mostra Pedro e João subindo ao Templo para a oração. À porta chamada Formosa, encontram um homem coxo de nascença, colocado ali para pedir esmolas.

Entre o coxo e Pedro intercorre um diálogo silencioso. Pedro tem a inciativa de convidá-lo a olhar para si e para João. Aquele homem esperava alguma coisa. Pedro, porém, oferece-lhe mais do que ele podia imaginar ou esperar: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda!”.

A Igreja, quando é fiel ao seu Senhor, não se apresenta como senhora de si mesma, nem confia primeiramente no ouro ou na prata. A Igreja oferece aquilo que recebeu: o nome de Jesus Cristo, única fonte de salvação. E aparece no seu melhor aspecto, como despenseira da misericórdia e da compaixão do Senhor.

Pedro toma o homem pela mão direita e o levanta. A cura não termina no benefício individual. O homem curado, aquele que estava fora, à porta, agora entra no Templo andando, pulando e louvando a Deus. Assim se revela a missão apostólica: levantar os caídos, introduzir na comunhão, devolver o louvor aos lábios e à vida. Nosso Senhor oferece-lhe pelas mãos dos apóstolos a saúde física como sinal e antecipação da saúde completa, a saúde escatológica. Pedro de fato age em nome de um Outro e sabe que está oferecendo algo que lhe não pertence. Trata-se do poder salvador do nome de Jesus crucificado e ressuscitado.

Por isso o salmo responsorial canta: “Seu som ressoa e se espalha em toda a terra”. A voz dos Apóstolos continua a atravessar os séculos, não como simples recordação histórica, mas como Palavra viva que conduz os povos ao encontro com Cristo. E as mais das vezes este encontro alarga a tenda da Igreja para acolher os irmãos que sofrem. Nossa Igreja, herdeira da missão apostólica, é mãe acolhedora, com as portas abertas para todos os passantes.

III.Asseguro-vos que o Evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos” (Gl 1,11).

Na carta aos Gálatas, São Paulo faz uma firme apologia da legitimidade da sua pregação reafirmando a origem divina. Nesta apologia ele nos ajuda a compreender a origem profunda da missão. Ele afirma que o Evangelho por ele anunciado não é conforme a critérios humanos, pois o recebeu por revelação de Jesus Cristo. Paulo não esconde a própria história: perseguia e devastava a Igreja de Deus. Mas aquele que o separou desde o ventre materno e o chamou por sua graça revelou-lhe o seu Filho para que o anunciasse entre os pagãos. A vocação apostólica, portanto, não é conquista humana, mas dom gratuito. Não nasce da suficiência do ministro, mas da misericórdia de Deus. É o próprio Deus que lhe impele: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Cor 12,9).

Pedro e Paulo aparecem unidos justamente nesta verdade. Ante os mesmos gálatas Paulo evoca a comunhão com Pedro, a quem, três anos após a conversão ele foi procurar: “…fui a Jerusalém para conhecer Cefas e fiquei com ele quinze dias” (v.18). Seu apostolado viria a encerrar-se mais tarde em Roma juntamente com Pedro.

Pedro levanta o coxo em nome de Cristo; Paulo anuncia porque Cristo lhe foi revelado. Um e outro nos ensinam que a Igreja vive da graça. Por isso, na oração sobre as oferendas, a Igreja reza de modo tão humilde e verdadeiro: gloriar-se da benignidade de Deus que salva e, ao mesmo tempo, temer pela pobreza dos próprios méritos. Esta é a atitude espiritual de todo discípulo e, de modo particular, de todo pastor: confiança sem presunção, humildade sem desânimo.

  1. Simão, filho de Jonas, tu me amas mais do que estes? … Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15).

O Evangelho nos conduz ao centro da celebração. Depois de comer com os discípulos, Jesus pergunta a Simão Pedro: “Tu me amas?” A pergunta se repete três vezes, e Pedro, entristecido, responde com humildade: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”.

Não entro aqui na questão dos conceitos de ágape e filia que Jesus empregou na pergunta. Ao fim e ao cabo se trata apenas de descobrir onde estava ferido o amor de Pedro para curá-lo. O Senhor não edifica o ministério de Pedro sobre uma segurança orgulhosa, mas sobre um amor ferido e curado pela misericórdia. A tríplice pergunta cura a tríplice negação e transforma a fragilidade em missão.

A cada resposta de Pedro, Jesus confia-lhe o rebanho: “Apascenta os meus cordeiros”; “apascenta as minhas ovelhas”. O rebanho não é de Pedro; é de Cristo. O pastor é chamado a servir aquilo que pertence ao Senhor. Por isso, a autoridade na Igreja só é evangélica quando se torna serviço; só é fecunda quando nasce do amor; só é verdadeira quando conduz todos a Cristo, Bom Pastor.

Depois da comunhão, a Igreja pedirá: “fortalecei com estes divinos mistérios os vossos fiéis que iluminastes com o ensinamento dos Apóstolos”. A Eucaristia realiza em nós aquilo que celebramos. A graça fortifica e cura as nossas fragilidades. A fé apostólica não é apenas memória de um passado venerável; é luz para o presente, alimento para o caminho e força para a missão. Iluminados pelo ensinamento dos Apóstolos e alimentados pelo Corpo do Senhor, somos enviados a testemunhar, com a vida, que Jesus Cristo continua levantando, curando, perdoando e conduzindo ao louvor.

Celebrar esta Vigília é, portanto, pedir a graça de permanecer firmes nos fundamentos da fé, sem nos apoiarmos em nós mesmos, mas na benignidade de Deus que salva. É aprender de Pedro a levantar em nome de Cristo; de Paulo, a anunciar o Evangelho recebido por graça; de ambos, a servir a Igreja com confiança, humildade e ardor apostólico.

Mas é mister lembrar, caros amigos, a pergunta fundamental que o Senhor faz também cada um de nós: “Tu me amas?” Dela nasce todo ministério, toda missão, todo verdadeiro pastoreio. Dela nasce toda a vocação de levar ao Senhor os que passam pela nossa vida. Por isso, a palavra de Santo Agostinho, que ilumina também o meu moto episcopal, resume admiravelmente a vocação de Pedro e de toda a Igreja: Sit amoris officium pascere dominicum gregem, si fuit timoris indicium negare Pastorem” — seja ofício do amor apascentar o rebanho do Senhor se foi indicio de temor negar o Pastor (Santo Agostinho, In Ioannis Evangelium Tractatus, 123, 5 (PL 35, col. 1967).

Nesta solenidade é bem nos lembrarmos do Santo Padre, sucessor de Pedro e Paulo na Sé Romana. Sucessor de Pedro, ele é sinal visível de unidade para toda a Igreja. Sucessor de Paulo, ele é apóstolo das gentes e impulsionador da ação missionária da Igreja.

Que a Rainha dos Apóstolos nos acompanhe no intrépido anúncio do Evangelho.

 

Diocese de Itumbiara
Diocese de Itumbiarahttps://diocesedeitumbiara.com.br/
A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.