A MESA DA PALAVRA
Homilia na Solenidade de São Josemaría Escrivá
Itumbiara, 26 de junho de 2026
“Deixaram tudo e seguiram Jesus” (Lc 5,11).
Caríssimos irmãos e irmãs,
Nesta celebração, a Palavra de Deus e a Eucologia nos conduzem por um itinerário simples: a graça que santifica a vida comum, o trabalho como participação na obra do Criador, a filiação divina como fundamento da existência cristã e a missão que faz do quotidiano um campo de santidade.
- A graça que santifica o ordinário
“Que a tua vida não seja uma vida estéril. — Sê útil. — Deixa rasto. — Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor” (Caminho, n. 1).
A Santa Igreja nos congrega hoje ao redor da mesa da Palavra e do altar do Sacrifício para dar graças a Deus pela santidade sacerdotal de São Josemaría Escrivá. Celebrar um santo é reconhecer que a graça de Cristo continua a produzir frutos na história. Nos santos, a Igreja contempla a obra-prima do Espírito Santo e a realização da promessa do Senhor: “Eu vos darei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15).
Por isso, podemos aplicar a São Josemaría aquilo que Santo Agostinho dizia ao comentar o salmo: “Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos”. Na santidade dos seus servos, Deus não exalta a autonomia humana, mas a vitória discreta e poderosa da sua graça.
A liturgia desta festa nos introduz no núcleo da mensagem confiada por Deus a São Josemaría: a vocação universal à santidade e ao apostolado, vivida no meio do mundo, através do trabalho cotidiano, dos deveres familiares e de todas as realidades honestas da vida comum. A santidade não se encontra apenas nos gestos extraordinários; floresce também na fadiga discreta de cada dia.
Com a oração coleta, pedimos ao Senhor que, por intercessão e exemplo de São Josemaría, nos conceda identificar-nos com o seu Filho através do trabalho cotidiano. O trabalho, aos olhos da fé, é lugar de obediência, de amor, de serviço e de união com Cristo. Se realizado em graça, com retidão de intenção, competência e caridade, torna-se oração, oferenda e caminho de santificação.
- “Para o cultivar e guardar”
“Põe um motivo sobrenatural na tua atividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho” (Caminho, n. 359).
A primeira leitura, tomada do Livro do Gênesis, recorda-nos as origens da vocação humana. Deus coloca o homem no jardim de Éden “para o cultivar e guardar” (Gn 2,15). Antes mesmo da queda, o homem é chamado a trabalhar. O trabalho pertence ao desígnio originário de Deus: não é castigo, mas missão; não é mera necessidade, mas participação responsável na obra do Criador.
Esta verdade, tão antiga quanto a criação, resplandeceu com nova luz na pregação de São Josemaría. Ele recordou aos cristãos que Deus os espera nas circunstâncias ordinárias da vida. Não é preciso fugir do mundo para encontrar o Senhor; é preciso transfigurá-lo a partir de dentro, com a luz da fé, a força da esperança e o ardor da caridade. O cristão não se santifica apesar dos seus deveres cotidianos, mas precisamente neles e por meio deles.
Cultivar e guardar: estes dois verbos condensam uma espiritualidade. Cultivar é trabalhar com diligência, paciência e esperança; guardar é proteger, respeitar e amar o que nos foi confiado. A família, o sacerdócio, o estudo, o serviço profissional e as tarefas humildes de cada dia podem ser elevados a Deus, se tudo for feito por amor.
Nesta mesma direção, o Papa Leão XIV recordou que “o trabalho deve ser uma fonte de esperança e de vida, que permita expressar a criatividade do indivíduo e sua capacidade de fazer o bem”. Aberta à graça, a atividade humana torna-se serviço, comunhão e caminho de santidade.
III. Filhos no Filho
“Necessário é que nos embebamos, que nos saturemos de que Pai e muito Pai nosso é o Senhor que está junto de nós e nos céus” (Caminho, n. 267).
A segunda leitura proclama uma das verdades mais consoladoras da revelação: “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). A santidade cristã nasce desta filiação divina. Não somos simples executores de uma lei exterior; somos filhos no Filho, introduzidos, pelo Batismo, na intimidade do Pai.
Saber-se filho de Deus ilumina a oração, purifica o trabalho, sustenta a perseverança e abre o coração ao apostolado. Quem se sabe filho não trabalha diante de Deus como escravo que teme, mas como filho que deseja agradar ao Pai. Daí nasce a fidelidade nas pequenas coisas, a alegria de servir e a coragem de recomeçar.
Esta espiritualidade não separa a missa da mesa familiar, a oração do expediente, a confissão das escolhas profissionais, a devoção da honestidade e a vida interior da caridade concreta. O cristão é chamado a ser contemplativo no meio do mundo: alguém que, sem abandonar as tarefas ordinárias, descobre nelas a presença amorosa de Deus.
Santo Tomás de Aquino exprimiu esta fecundidade ao escrever: “Assim como é melhor iluminar do que apenas brilhar, assim também é melhor transmitir aos outros o que se contemplou do que apenas contemplar”. A contemplação cristã não fecha a alma em si mesma; faz dela uma lâmpada acesa para os irmãos.
- “Avança para águas mais profundas”
“Que procures a Cristo. Que encontres a Cristo. Que ames a Cristo” (Caminho, n. 382).
No Evangelho, a contemplação do trabalho e da filiação desemboca na missão. O Senhor diz a Simão: “Avança para águas mais profundas e lançai as redes para a pesca” (Lc 5,4). Pedro conhece o cansaço da noite infrutífera, mas, apoiado na palavra de Cristo, recomeça: “Em atenção à tua palavra, vou lançar as redes” (Lc 5,5). Eis o segredo da fecundidade apostólica: obedecer ao Senhor mesmo quando a experiência parece aconselhar o desânimo.
Também aqui se compreende o carisma do Opus Dei: cada batizado é chamado a lançar as redes no mar vasto do mundo — nas profissões, nas famílias, nas amizades, na cultura e nas periferias da sociedade. Não se trata de mundanizar a fé, mas de cristificar o mundo; não de diluir o Evangelho nas realidades temporais, mas de inserir nelas o fermento da graça.
A barca de Pedro continua a avançar na história. Nela, cada carisma autêntico é dom para toda a Igreja. O Opus Dei recorda que a santidade não é privilégio de alguns, mas vocação de todos; e que o apostolado é a irradiação normal de uma vida unida a Cristo.
Por isso, a santificação do trabalho exige competência, ordem, justiça, espírito de serviço, pureza de intenção e amor à verdade. A mediocridade voluntária não evangeliza. O cristão santifica o trabalho quando procura fazê-lo bem, oferecendo a Deus o esforço, a fadiga, as contrariedades e os frutos.
Conclusão
Caríssimos, à luz deste itinerário espiritual, acolhamos a exortação que a Palavra de Deus e o testemunho de São Josemaría nos dirigem: talvez o maior perigo seja imaginar que Deus se encontra apenas nos momentos excepcionais. Enquanto esperamos uma grande ocasião, deixamos escapar o lugar concreto onde Ele nos chama: o hoje, o aqui, o dever presente. A santidade cresce no terreno humilde da fidelidade cotidiana.
Há heroísmo em levantar-se cedo por amor; há penitência em escutar com paciência; há apostolado em trabalhar com honestidade; há oração em aceitar uma contrariedade sem amargura. O que é ordinário aos olhos do mundo torna-se extraordinário quando passa pelo Coração de Cristo.
São Josemaría ensinava que é preciso começar e acabar todas as tarefas por Amor. Esta palavra é a chave. Sem amor, o trabalho endurece; com amor, torna-se caminho de comunhão. Sem amor, o apostolado degenera em ativismo; com amor, torna-se transbordamento de uma alma unida a Deus.
Não se santifica o mundo com um coração vazio de Deus. A ação cristã nasce da oração, alimenta-se da Eucaristia, purifica-se na Confissão, ilumina-se pela Palavra e amadurece na cruz. Aqui ressoa a humilde jaculatória do Beato Álvaro del Portillo: “Obrigado, perdão, ajuda-me mais!”
Peçamos que esta celebração renove em nós o assombro pela vocação batismal. Ninguém está excluído do chamado à santidade: todos são chamados a amar a Deus no lugar onde Ele os plantou. O Senhor não nos pede outra vida imaginária; pede-nos que vivamos santamente a vida real que recebemos de suas mãos.
Ao aproximar-nos do altar, ofereçamos ao Pai, com Cristo e em Cristo, o nosso trabalho, as nossas famílias, responsabilidades, fadigas e esperanças. Que nada fique fora da Eucaristia. Que tudo seja assumido pelo Sacrifício do Senhor e volte ao mundo como semente de santidade, justiça, paz e alegria cristã.
A Virgem Santa, Regina Operis Dei, mulher do cotidiano transfigurado pela graça, nos ensine a cumprir com amor a vontade de Deus. E São Josemaría interceda por nós, para que saibamos procurar Cristo, encontrar Cristo e amar Cristo nas ocupações ordinárias, até que toda a nossa vida se torne louvor da glória de Deus.

