A Mesa da Palavra: XXIII Domingo do Tempo Comum – C

A MESA DA PALAVRA

XXIII Domingo do Tempo Comum – C
Itumbiara, 7 de setembro de 2025

Setembro: Mês da Bíblia

Quem dentre vós não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo

Caríssimos amigos,

O mês de setembro é muito importante para nós católicos. Por ser o mês em que celebramos o grande biblista São Jerônimo, o episcopado brasileiro o escolheu para celebrar o Mês da Bíblia, com o intuito pastoral de redobrar o amor e a reverência à Palavra de Deus. Já no terceiro domingo do tempo comum, atendendo ao pedido do saudoso Papa Francisco tivemos a alegria de celebrar o Domingo da Bíblia, que, juntamente com a Sagrada Tradição, reconhecemos como fonte da revelação de Deus à humanidade.

Este ano, a Igreja Católica no Brasil inteiro vai se unir na meditação sobre a Epístola que São Paulo escreveu aos Romanos. Nela o Apóstolo preparou um compêndio de doutrina e de vida no Espírito: redenção, adoção filial, liberdade verdadeira, herança eterna. Estes temas são sintetizados na oração coleta de modo sublime, como veremos.

  1. Ó Deus, olhai com bondade os que redimistes e adotastes…” (da Coleta).

A oração de hoje ressoa através dos séculos como voz da Igreja, voz da Esposa que fala ao seu Esposo: “Ó Deus, olhai com bondade os que redimistes e adotastes como filhos e filhas, e concedei aos que creem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”.

Esta fórmula não nasceu ontem. Já está registrada em sacramentários dos séculos VII-VIII (Gelasiano Vetus e Gregoriano-Hadrianum) a liturgia a conservou ao longo dos séculos com pequenas variantes, até chegar ao atual Missal Romano.

O que pede esta súplica? Primeiro, ela nos convida à gratidão ao recordar o imenso dom recebido: redenção e adoção. Somos gratos a Deus por nos ter oferecido a sua copiosa redenção, realizada pelo Sangue de Cristo derramado na Cruz. Ademais do perdão dos pecados, nos inseriu no corpo de Cristo, tornando-nos filhos seus por obra da graça. Já não somos servos. A seguir a esta invocação de Deus, a Igreja implora dois bens indispensáveis para a nossa felicidade aqui e depois na eternidade: a verdadeira liberdade e a herança eterna.

No pensamento de Santo Agostinho, a verdadeira liberdade não consiste no objeto das nossas escolhas, mas no modo em que fazemos a escolha. O homem pecador não escolhe entre o bem e o mal diretamente, escolhe mal entre os bens, ama desordenadamente as coisas e, assim, macula progressivamente sua natureza. Santo Agostinho ensina que “somos livres, na medida em que nos deleitamos na lei de Deus: é a liberdade quem nos proporciona este deleite” (In Io. Ev. tr. 41,10). Quanto à condição de filhos, São Paulo nos ensina: “Si autem filii, et heredes: heredes quidem Dei, coheredes autem Christi” (Rm 8,17). A nossa coleta, portanto, suplica a Deus que nos eduque a olhar a vida como filhos livres, chamados à herança dos santos.

  1. Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” (Sb 9,13)

A primeira leitura nos faz confessar: “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” (Sb 9,13), quem pode sondar os intentos do Senhor?

O homem é criatura frágil, “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas”. Só o Espírito enviado do alto pode iluminar nossas mentes e socorrer nosso coração vacilante, para nos ajudar a conhecer os desígnios do Senhor.

Permanece sempre válida a carinhosa advertência do Bispo de Hipona, Santo Agostinho, aos seus diocesanos e a nós: “Que diremos, pois, de Deus, irmãos? Pois, se compreendeste o que estás dizendo, não é Deus. Se o conseguiste compreender, compreendeste outra coisa que não Deus. Se pensas que o conseguiste compreender, enganaste-te a ti mesmo por causa da tua imaginação. Se, portanto, o compreendeste, Deus não é assim; se ele é assim, não o compreendeste. Por que, então, queres falar daquilo que não conseguiste compreender?”. (Serm. 52,6).               Embora Santo Agostinho, neste sermão critique uma certa tendência racionalista (aliás bastante presente na modernidade), não postula uma atitude cética que nega em absoluto a possibilidade de conhecer a Deus e os seus planos para nós. Ele quer antes sublinhar que Deus é sempre maior do que qualquer conceito humano que se faça a respeito dele: “Se compreendeste, não é Deus”.               Mas essa apofasia agostiniana não conduz ao silêncio total ou ao ceticismo. O  próprio Santo Agostinho pergunta: “Por que queres falar daquilo que não conseguiste compreender?”. Na verdade, não compreendemos, mas confessamos; não apreendemos, mas louvamos; não vemos plenamente, mas cremos e adoramos.

Esta intuição de Santo Agostinho reverbera o belíssimo texto bíblico: “Na verdade tu és um Deus escondido, ó Deus de Israel e Salvador” (Is 45,15). Sim, irmãos, Deus é absolutamente transcendente. Tudo o que o homem pode pensar ou imaginar não o abarca em sua essência. Mas, como ensina o Divus Thomas, “De Deo scimus quia est, quid sit non scimus” (S.Th. I, q.3, a.4): sobre Deus sabemos que ele é (que existe), mas não sabemos o que ele é. E os seus pensamentos não são nos nossos pensamentos.

A linguagem sobre Deus se aproxima mais da verdade quando é confissão de fé e não com a precisão dos discursos filosóficos. Por isso, Santo Agostinho pode manter a tensão harmônica entre o Deus absconditus (oculto) e o Deus revelatus (manifestado em Cristo). Bento XVI retomou esta mesma ideia em Deus Caritas est: Deus é amor, mas este amor não é redutível às nossas categorias humanas, aos conceitos que cabem na nossa pobre razão.

Finalmente, encontramos paz na Sabedoria encarnada, no Verbo encarnado, que reconcilia a humanidade com o Deus escondido e agora revelado. Assim aprendemos com segurança as coisas que agradam a Deus e somos salvos pela Sabedoria.

E o salmo responsorial faz ecoar a humilde súplica: “Ensinai-nos a contar os nossos dias e dai-nos sabedoria ao coração” (Sl 89,12). Mas que sabedoria é esta, irmãos? Contar os dias não é somar calendários, mas pesá-los diante da eternidade. Cada instante pode ser útil, se vivido em Cristo; ou nocivo, se desperdiçado em vaidades. O tempo é breve; a eternidade é longa. Saber contar os dias é investir cada instante na herança eterna. Eis o eco da coleta: viver a liberdade dos filhos não para desperdiçar o tempo, mas para santificá-lo.

III. Acolhe-o não já como escravo, mas como irmão caríssimo” (cf Fm 16)

Caros irmãos, esta carta paulina nos ajuda a compreender a pedagogia divina da caridade empregada pelo Apóstolo para libertar como Filêmon quando Onésimo de suas respectivas escravidões.

São Paulo escreve a Filêmon suplicando por Onésimo, escravo convertido. O nome dele significa “útil” (Ὀνήσιμος). E Paulo joga com o sentido: outrora inútil, agora útil “a ti e a mim” (cf. Fm 11), porque em Cristo é irmão. Por isso, sem apelar para a autoridade que tem como apóstolo, apóia-se na caridade de Filêmon para pedir-lhe que Onésimo seja recebido, “não já como escravo, mas como irmão caríssimo” (Fm 16). São Paulo ainda diz: “como irmão caríssimo meu, mas sobretudo teu”. Efetivamente, Filêmon perde um escravo e ganha um irmão. Fica liberto do peso da escravidão do domínio sobre outrem e recebe Onésimo que Paulo lhe dá como irmão liberto da escravidão do pecado pelas águas do batismo.

A profundidade da breve carta paulina se compreende melhor quando levamos em conta a condição do escravo no mundo greco-romano. O escravo era tido como coisa, um mero instrumento falante (instrumentum vocale). Mas o Evangelho semeia a revolução da caridade: não basta libertar; é preciso reconhecer como irmão. São João Crisóstomo comenta: “Não disse [a Filêmon]:despede-o na liberdade, mas muito mais: acolhe-o como irmão” (Hom. in Philem., PG 62, 711). A Providência, que nunca falha, afasta aqui a desumanização, a coisificação da pessoa e concede o “útil”, a fraternidade em Cristo.

Nesse contexto podemos perceber a conexão com a coleta. Aqui a coleta encontra sua carne: a verdadeira liberdade não é viver sem laços, mas viver em vínculos novos purificados pelo amor; a herança não é de bens perecíveis, mas da comunhão eterna que já começa quando consideramos o outro como irmão, porque fomos todos redimidos e adotados como filhos e filhas.

  1. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo

O conhecimento dos desígnios de Deus leva à compreensão da exigente palavra de Jesus: “Quem não carregar sua cruz e não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27.33). O Senhor não ameniza as exigências do caminho: amá-l’O é colocar todos os demais amores em ordem e segundo a devida hierarquia: amar a Deus por primeiro é amar os demais em Deus.

Quem conhece o Senhor Jesus percebe que é ele mesmo quem revela os critérios para aquilatar todos os verdadeiros valores da vida. Estes critérios são orientados pelo Espírito Santo e são muito diferentes dos critérios mundanos. Efetivamente, o que, segundo os critérios mundanos, se considera nocivo (a cruz, o sacrifício, a renúncia), a sabedoria do Espírito nos ensina que é útil para a alcançar a vida eterna; e o que os critérios mundanos chamam útil — honras, riquezas, glórias — a sabedoria do Espírito considera nocivo para a salvação. De fato, a cruz de Cristo é a medida do amor. Quem a evita, perde o essencial. Quem a abraça, encontra o que é essencial e verdadeiramente útil (Homilia, 14/09/1987).

São João Paulo II, comentando a cruz, a seu tempo, dizia: “Na cruz de Cristo, na união redentora com Ele, no aparente fracasso do Homem justo que sofre e com o seu sacrifício salva a humanidade, no valor de eternidade desse sofrimento está a resposta. Voltai o olhar para Ele, para a Igreja e o mundo, e elevai o vosso sofrimento, completando nele, hoje, o mistério salvífico da sua cruz” (Encontro com os doentes, Saragoça, 6.11.1982).

No Evangelho, Jesus exige renúncia radical, que a Igreja não tem o direito de amenizar ou minimizar: “Quem não carregar sua cruz e não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27.33).

Caríssimos, neste Mês da Bíblia, aprendamos a discernir entre o que nos escraviza e o que nos liberta, entre o que é nocivo e o que é útil. Que a Palavra de Deus nos eduque e ensine a viver como filhos livres, herdeiros da gloria prometida em Cristo.

Oremos com confiança: “Senhor, cuja providência não falha, purificai nossos desejos, ordenai nossos amores, transformai nossas relações e fortalecei nosso seguimento. Afastai de nós o que nos perde, concedei-nos abraçar o que nos salva. E fazei que, iluminados pela vossa Palavra, possamos caminhar entre as vicissitudes da cidade dos homens ardentes do desejo de alcançar a Cidade de Deus, na gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Que o Senhor abençoe e proteja a nossa pátria terrestre, enquanto temos os olhos fixos na Jerusalém Celeste”.

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.