A MESA DA PALAVRA – XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA
XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 30 de agosto de 2026

Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?” (Mt 16,26).

Dia nacional do Catequista

Caros amigos,

No domingo passado, Pedro professou a fé revelada pelo Pai: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Hoje, porém, ainda precisa compreender que Jesus é o Messias da Cruz: acolhe sua glória, mas recusa o caminho do Calvário. Esse pode ser também o nosso drama: querer Cristo sem a Cruz e a Ressurreição sem a entrega da vida. A Palavra deste domingo corrige esse modo de pensar e nos conduz ao mistério celebrado na Eucaristia. Nela o banquete pascal é inseparável do sacrifício: Cristo oferece-nos como alimento a Vida que entregou por nós.

  1. Deus onipotente, fonte de todo dom perfeito, semeai em nossos corações o amor ao vosso nome…” (Coleta).

A oração da Coleta oferece-nos a primeira chave para penetrar na liturgia deste domingo: Deus semeia, Deus faz crescer, Deus guarda. A iniciativa é sempre sua. A vida cristã nasce do dom de Deus, cresce pela sua graça e chega à maturidade quando o homem, alcançado por esse amor, responde fazendo também de si mesmo um dom.

O Prefácio IV dos Domingos do Tempo Comum oferece-nos outra chave para compreender as leituras: “Nascendo, ele renovou a antiga condição humana; sofrendo a paixão, apagou nossos pecados; ressurgindo dos mortos, concedeu-nos a vida eterna; subindo a vós, ó Pai, abriu-nos as portas do céu”.

Temos aqui todo o caminho de Cristo: nascimento, Paixão, Ressurreição e Ascensão. Entre o nascimento e a glória está a Cruz. Cristo veio até nós para nos conduzir ao Pai; assumiu nossa condição para renová-la; passou pela morte para vencê-la; e subiu ao céu para nos abrir suas portas. Este é o mistério cristão: Cristo não fugiu do sofrimento e da morte, mas os venceu e transformou a Cruz em caminho para a vida.

À luz desse mistério podemos compreender as leituras deste domingo: Jeremias mostrará que a fidelidade a Deus pode passar pelo sofrimento; São Paulo ensinará que a existência redimida deve tornar-se oferta; e Pedro terá de aprender que o Messias chegará à Ressurreição não evitando a Paixão, mas passando por ela. A dificuldade de Pedro é também a nossa: queremos que Deus nos dê a vida, mas custa-nos aceitar o caminho pelo qual Ele nos leva à vida; queremos a Páscoa, mas desejaríamos retirar dela a Sexta-feira Santa.

  1. Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir” (Jr 20,7).

Jeremias viveu num tempo conturbado, marcado por injustiças, infidelidades religiosas e graves erros políticos. Por denunciar o pecado e anunciar a Palavra de Deus, desagrada aos poderosos, é insultado e perseguido. A missão que recebera do Senhor transforma-se, humanamente falando, na causa de seus sofrimentos. É nesse contexto que brota sua oração: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder”. E acrescenta: “A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro”. O profeta chega a uma decisão extrema: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele”. Jeremias diz que não falará mais em nome de Deus. Mas será que consegue? Não. Ele próprio confessa: “Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar”.

Que combate se trava no coração do profeta! Sofre porque fala, mas não consegue deixar de falar; sofre por causa da Palavra, mas já não consegue viver sem ela; deseja fugir daquele que o seduziu, mas descobre que já pertence àquele que o chamou. Talvez esteja aqui uma bela descrição da vocação: já não conseguir viver como se Deus não nos tivesse chamado.

Jeremias poderia calar-se e conservar a tranquilidade, mas seria uma tranquilidade comprada ao preço da infidelidade. Poderia poupar-se, mas, poupando-se, perderia aquilo que dava sentido à sua existência.

O profeta já nos introduz no paradoxo que Jesus proclamará no Evangelho: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la”. Jeremias perde a tranquilidade, o aplauso e a segurança, mas permanece fiel ao Deus que o seduziu. Ele não procura o sofrimento; apenas descobre que, neste mundo ferido pelo pecado, a fidelidade tem um preço.

III.Oferecei-vos em sacrifício vivo” (Rm 12,1).

Depois de apresentar aos Romanos o mistério da salvação que Deus gratuitamente nos oferece em Cristo, São Paulo mostra as consequências dessa graça na vida do batizado: “Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual”. Notemos: São Paulo não diz apenas “oferecei alguma coisa”, mas “oferecei-vos”. A oferta não é somente aquilo que colocamos diante de Deus; a oferta somos nós. Eis a novidade do culto cristão: aquilo que celebramos sacramentalmente deve tornar-se aquilo que vivemos diariamente.

Daqui a pouco, sobre este altar, o pão e o vinho tornar-se-ão sacramento do Corpo entregue e do Sangue derramado de Cristo. Mas, quando dissermos “Amém” ao Corpo de Cristo, esse “amém” não poderá terminar à porta da Catedral. Comungar daquele que se entregou significa aprender a entregar-se. A Eucaristia não é apenas o Cristo que acolhemos; é também a escola na qual aprendemos a oferecer-nos com Ele.

São Paulo indica-nos, em seguida, como se chega a essa oferta de si: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus”. Aqui a segunda leitura encontra diretamente o Evangelho. Qual foi o erro de Pedro? Jesus mesmo o declara: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens”. E qual é o remédio apresentado por São Paulo? “Transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar”.

Pedro precisa aprender a pensar segundo Deus. Nós também precisamos. Pensar segundo os homens é perguntar somente como podemos preservar-nos; pensar segundo Deus é perguntar como podemos entregar-nos. Pensar segundo os homens é medir a vida pelo sucesso, pelo poder, pelo bem-estar e pela aprovação alheia; pensar segundo Deus é medi-la pelo amor, pela fidelidade, pelo serviço e pelo dom de si.

Não se trata de desprezar o mundo, mas de não fazer da mentalidade do mundo a medida última de nossa existência.

  1. Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Caros amigos, recordemos, por um instante, o Evangelho de Domingo passado. Nele, Pedro confessava: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Hoje, Jesus revela aos discípulos o significado daquela profissão de fé: deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro rebela-se: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!”. Como pode o Filho do Deus vivo sofrer até a morte?

Ao comentar este Evangelho, Bento XVI observa que precisamente aqui se manifesta a divergência entre o desígnio de amor do Pai, que chega ao dom do Filho na Cruz para salvar a humanidade, e as expectativas dos discípulos. Esse contraste repete-se também hoje: quando orientamos nossa vida unicamente para o sucesso, o bem-estar e a segurança, já não pensamos segundo Deus, mas segundo os homens.

Por isso, Jesus dirige a Pedro uma palavra particularmente dura: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço”. Como pode aquele que pouco antes fora chamado pedra tornar-se agora pedra de tropeço? Pedro é pedra firme quando acolhe aquilo que o Pai lhe revela; torna-se pedra de tropeço quando pretende indicar a Deus o caminho que Deus deve seguir. Esta é também uma tentação nossa: não rejeitar Deus, mas desejar um Deus que confirme nossos projetos; não abandonar Cristo, mas querer um Cristo sem Cruz.

Nosso Senhor ensina, porém, que o caminho do discípulo é o caminho do Crucificado: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. A Cruz cristã não é a procura do sofrimento pelo sofrimento. É a consequência do amor levado até o fim. O discípulo não ama a dor; ama a Cristo. E, porque ama a Cristo, permanece fiel também quando a fidelidade custa, quando exige renúncia, quando o Evangelho contraria seus projetos ou quando o testemunho cristão provoca incompreensão.

A Cruz, iluminada pela Ressurreição, é vitoriosa. Voltamos, assim, à chave que a liturgia nos ofereceu no Prefácio: “Sofrendo a paixão, apagou nossos pecados; ressurgindo dos mortos, concedeu-nos a vida eterna”.

Pedro via na Cruz o fim; Deus fazia dela passagem para a Ressurreição. Pedro via derrota; Deus realizava a redenção. Pedro queria poupar a vida de Jesus; o Pai, por meio da entrega do Filho, salvava a vida do mundo.

Compreendemos, então, a pergunta de Nosso Senhor: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?”. Ganhar o mundo e perder-se: que ganho é esse? Possuir tudo e perder a própria alma: que riqueza é essa? O mundo passa, mas nós fomos criados para Deus e para a eternidade.

Caros amigos, daqui a pouco nos aproximaremos da Mesa da Eucaristia. Ali encontraremos aquele que não apenas pronunciou essas palavras, mas as realizou até o fim. Cristo não conservou a própria vida: entregou-a. Não conquistou o mundo dominando-o: conquistou-o amando-o. E agora nos oferece como alimento a mesma vida que por nós entregou.

Entre a terra e o céu está a Cruz; mas, desde que Cristo passou por ela, a Cruz já não é uma estrada sem saída: tornou-se caminho. E aquele que nos diz “tome a sua cruz” acrescenta imediatamente: “e siga-me”. Sigamo-lo. À frente de nossa cruz está a Cruz dele; à frente de nossa morte está a sua Ressurreição; e, ao término do caminho, está a porta do céu que Ele mesmo abriu para nós.

Peçamos à Virgem Maria, que permaneceu de pé junto à Cruz, a graça de aprender a pensar segundo Deus. Que a fidelidade de Maria ao Verbo encarnado inspire quem exerce a missão de catequista. Não nos esqueçamos da promessa feita por Deus pelos lábios de Daniel:  “Os que tiverem ensinado muitos a seguir a justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade” (Dn 12,3).

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

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