A MESA DA PALAVRA XVI – Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA
XVI Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 19 de julho de 2026
“Deixai crescer um e outro até à colheita” (Mt 13,30)

Caros amigos,

no domingo passado, a Liturgia nos apresentava, por meio da parábola do semeador, um obstáculo à entrada e à permanência do Reino de Deus em nós. O obstáculo não estava no semeador nem na semente, mas no terreno: ora pedregoso, ora ressequido, ora coberto de espinhos. Tratava-se, portanto, de um obstáculo interior. O bom terreno é a alma que persevera na graça de Deus, amanhando a terra onde o divino Agricultor deposita a boa semente.

Hoje, porém, a Igreja nos apresenta outro obstáculo à semeadura: um inimigo que vem de fora. O próprio Jesus não deixa lugar a dúvidas: “O inimigo que semeou o joio é o diabo” (Mt 13,39). Sim, o demônio existe. Não é uma figura literária destinada a representar vagamente o mal, mas uma criatura espiritual decaída, inimiga de Deus e da salvação dos homens. E sua ação torna-se tanto mais eficaz quanto mais se nega a sua existência e, por isso, se abandona a vigilância espiritual. Seu método mais insidioso não consiste em apresentar o mal com toda a sua deformidade, mas em revesti-lo de alguma aparência de bem, misturando o erro com uma parcela de verdade.

Entretanto, não devemos atribuir tudo diretamente ao demônio, como se a liberdade humana não existisse. O inimigo age também por meio da concupiscência, das estruturas de pecado, das modas intelectuais, das ideologias e até mesmo de pessoas que, muitas vezes sem plena consciência, se tornam transmissoras do erro.

  1. Senhor, sede propício a vossos fiéis e, benigno, multiplicai neles os dons da vossa graça, para que, fervorosos na fé, esperança e caridade, perseverem sempre vigilantes na observância dos vossos mandamentos” (Coleta).

A oração coleta é um verdadeiro compêndio de teologia espiritual. A oração começa voltando nosso olhar para a benevolência de Deus. Não principia pela força do homem, por sua inteligência ou por sua capacidade de resistir ao mal. Principia pela graça: “Multiplicai neles os dons da vossa graça”.

A vida cristã não é fruto de um voluntarismo orgulhoso. Não nos salvamos apenas porque tomamos boas resoluções. É Deus quem toma a iniciativa, sustenta nossa fraqueza, cura as feridas do pecado e nos torna capazes de praticar o bem.

Por isso pedimos que se tornem fervorosas em nós as três virtudes teologais: a fé, pela qual aderimos a Deus e à verdade por Ele revelada; a esperança, pela qual esperamos firmemente a vida eterna e os auxílios necessários para alcançá-la; e a caridade, pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus.

Essas virtudes são infundidas em nossa alma no Batismo. Quando o pecado mortal destrói a caridade e nos priva da graça santificante, o sacramento da Penitência, recebido com as devidas disposições, reconcilia-nos com Deus e restitui-nos a vida da graça. A fé e a esperança podem permanecer no pecador, embora privadas da sua plena vitalidade; mas a caridade não pode subsistir numa alma que deliberadamente prefere o pecado grave a Deus.

A coleta associa as três virtudes à vigilância e à observância dos mandamentos. Não basta conhecer a doutrina; é necessário vivê-la. Não basta dizer que amamos a Deus; é necessário guardar sua palavra: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (Jo 14,23).

Bento XVI, comentando exatamente o Evangelho deste domingo, ensinava: “Devemos estar prontos para conservar a graça recebida desde o dia do Batismo, continuando a alimentar a fé no Senhor, a qual impede que o mal ganhe raízes” (Angelus, 17-VII-2011).

A vigilância cristã não é medo angustiado, mas cuidado amoroso com o dom recebido. Vigia quem sabe que carrega um tesouro. Vigia quem reconhece a própria fragilidade. Vigia quem não deseja perder a amizade de Deus.

Perguntemo-nos: que sementes permitimos que entrem em nossa alma? Que leituras alimentam nossa inteligência? Que imagens povoam nossa imaginação? Que vozes orientam nossas decisões? Que ensinamentos oferecemos às crianças e aos jovens? Nem tudo o que se apresenta como moderno é verdadeiro; mas também nem tudo o que se apresenta sob o nome de tradição é necessariamente fiel à Tradição viva da Igreja.

O critério não é a novidade sem raízes nem a antiguidade rígida isoladamente consideradas. O critério é a conformidade com Cristo, com o Evangelho integralmente recebido e com a fé transmitida pela Igreja.

II.A teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores” (Sb 12,19)

A primeira leitura revela que a paciência de Deus não é fraqueza. Deus é paciente porque é forte. Somente aquele que possui perfeito domínio de si pode esperar sem abandonar a verdade e corrigir sem deixar de amar. O Livro da Sabedoria declara: “Dominando a tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração” (Sb 12,18). E acrescenta: “A teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores” (Sb 12,19).

Aqui encontramos a chave para compreender por que o senhor do campo não permite que os empregados arranquem imediatamente o joio. Não é porque o joio seja indiferente. Não é porque o bem e o mal sejam equivalentes. Não é porque Deus tenha renunciado ao juízo. Ao contrário, o Evangelho afirma claramente que haverá a colheita e a separação final.

Deus espera porque deseja a conversão do pecador. A paciência divina abre um tempo de misericórdia entre a semeadura e a colheita.

Bento XVI, no mesmo Angelus de 17-VII-2011, recorda palavras incisivas de de Santo Agostinho: “Muitos, primeiro são joio e depois tornam-se trigo bomSe eles, quando são malvados, não fossem tolerados com paciência, não chegariam à mudança louvável” (Quaest. septend. in Ev. sec. Matth., 12, 4: pl 35, 1371).

Esta consideração nos impede de cair em dois erros opostos. O primeiro é o relativismo, que chama o joio de trigo, desculpa o pecado e silencia a verdade em nome de uma falsa misericórdia. O segundo é a dureza impaciente que deseja condenar definitivamente as pessoas, como se não houvesse para elas possibilidade de conversão.

Devemos rejeitar o pecado, mas desejar ardentemente a salvação do pecador. Devemos defender a verdade, mas não nos apropriar do juízo que pertence a Deus. Não somos senhores da colheita; somos servidores da semeadura.

Também não devemos perder a esperança em nós mesmos. Talvez alguém carregue há anos uma fraqueza, uma queda repetida, uma ferida que parece não cicatrizar. A primeira leitura responde: Deus “concede o perdão aos pecadores”. Enquanto há arrependimento sincero, retorno ao sacramento da Penitência e luta perseverante, a misericórdia de Deus continua trabalhando a terra da alma. A sabedoria consiste em não deixar morrer a esperança. Não somos juízes dos irmãos; somos mensageiros daquela esperança que não decepciona.

III. “O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26).

Para perseverar na sabedoria que nos ajudará a estar vigilantes para contrastar a semeadura tóxica do joio e acolher a boa semente do trigo lançada pelo divino semeador, precisamos da assistência do Divino Espírito Santo. Ele ora em nós e por nós. Ele nos torna capazes de discernir os falsos valores dos valores compatíveis com a Boa Nova de Jesus Cristo.

São Paulo reconhece com humildade: “Não sabemos o que pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Não sabemos sequer rezar como convém. Nossa inteligência é limitada, nossos desejos estão frequentemente desordenados e nossas palavras são insuficientes. Mas o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza. Ele não reza apenas ao nosso lado; reza em nós. Purifica nossos pedidos, eleva nossos desejos e faz com que nossa oração se conforme à vontade do Pai. Sob sua ação, aprendemos a pedir não simplesmente aquilo que nos agrada, mas aquilo que nos santifica.

Para contrastar a semeadura venenosa do joio e acolher a boa semente lançada pelo divino Semeador, precisamos do dom do discernimento. E discernir não significa simplesmente escolher aquilo que mais nos atrai. Discernir é reconhecer, à luz de Deus, o que conduz à verdade, à santidade e à comunhão eclesial.

Francisco F. Carvajal, prosseguindo na mesma linha, adverte: “É necessário vigiar dia e noite e não se deixar surpreender; vigiar para poder ser fiel a todas as exigências da vocação cristã, para não dar lugar ao erro, que logo conduz à esterilidade e ao afastamento de Deus” (Falar com Deus, XVI Domingo do tempo comum, Ano A).

A vigilância começa no coração. Antes de procurar o joio nos outros, é preciso reconhecer suas sementes dentro de nós: a vaidade que se apresenta como zelo; a dureza que se disfarça de fidelidade; a curiosidade malsã que recebe o nome de informação; a covardia que se chama prudência; o ressentimento que pretende passar por amor à justiça.

A oração perseverante ilumina a inteligência, fortalece a vontade e educa os afetos. Ensina-nos a amar o que Deus ama e a rejeitar o que nos afasta dele. O Espírito Santo não elimina nossa liberdade, mas a cura e a eleva, para que possamos escolher o bem com firmeza e alegria.

Por isso, diante da confusão de nosso tempo, não basta multiplicar denúncias. É necessário multiplicar a oração, a formação doutrinal, a vida sacramental, a leitura da Sagrada Escritura e a docilidade ao Magistério da Igreja. Quanto mais escura parece a noite, mais necessária se torna a lâmpada acesa.

  1. Enquanto todos dormiam, veio o inimigo e semeou joio no meio do trigo” (Mt 13,23).

O Evangelho afirma que o inimigo semeou o joio “enquanto todos dormiam”. O sono significa aqui a negligência, o relaxamento da vigilância, a acomodação espiritual.

O inimigo trabalha ocultamente. Não arranca primeiro o trigo; semeia ao lado dele uma planta muito semelhante. O joio cresce misturado ao trigo e, durante algum tempo, pode enganar até um olhar experimentado.

Francisco Fernández-Carvajal observa: “É próprio do demônio misturar o erro com a verdade”. E conclui: “A abundância de joio só pode ser combatida com uma abundância ainda maior de boa doutrina: vencer o mal com o bem, com o exemplo de vida e com a coerência de conduta”. (Falar com Deus, XVI Domingo comum, Ano A).

Esta é uma orientação decisiva. Não basta amaldiçoar a escuridão; é preciso acender a luz. Não basta lamentar a difusão do erro; é preciso ensinar a verdade. Não basta protestar contra a dissolução da família; é necessário formar famílias santas. Não basta denunciar a irreverência; é necessário celebrar e participar da Liturgia com fé, beleza e piedade. Não basta apontar as feridas da Igreja; é preciso ser, dentro dela, trigo bom.

Bento XVI, falando da autêntica renovação eclesial, ensinava: “Para contrastar o joio escolheu ser grão bom: ou seja, decidiu amar Cristo na Igreja e contribuir para a tornar cada vez mais sinal transparente dEle”. E prosseguia: “Qualquer reforma deve ser feita dentro da Igreja e nunca contra a Igreja” (Audiência Geral, 7-X-2009).

Há uma falsa reforma que se julga superior à Igreja, despreza a sua unidade e escolhe da doutrina apenas aquilo que corresponde às próprias preferências. Mas há também uma falsa fidelidade que transforma opiniões particulares, costumes contingentes ou juízos pessoais em critérios absolutos, colocando-os acima da autoridade legítima da Igreja.

Em ambos os casos, a raiz é semelhante: a soberba de aceitar Cristo-Cabeça, mas resistir ao seu Corpo Místico; invocar o Evangelho, mas rejeitar os meios pelos quais Cristo quis que ele fosse guardado e transmitido.

A verdadeira fidelidade ama Cristo na Igreja. Sofre com as fraquezas de seus membros, trabalha por sua purificação, mas não rompe a comunhão. Não abandona a barca por causa das tempestades; reza, repara, serve e permanece.

O trigo dá o pão. E o pão, pela palavra de Cristo e pela ação do Espírito Santo, torna-se para nós o Corpo do Senhor. O joio é estéril e pode contaminar a farinha; o trigo, ao contrário, deixa-se colher, triturar e transformar em alimento.

Ser trigo significa aceitar a fecundidade escondida do sacrifício. Significa morrer para o egoísmo, a fim de alimentar os irmãos. Significa permanecer unido a Cristo e deixar que sua graça transforme nossa vida em oferta.

Caros amigos, a tentação não é pecado; consentir nela, sim. A presença do joio não deve levar-nos ao desânimo, mas à vigilância. A paciência de Deus não deve ser confundida com indiferença: ainda é tempo de conversão, mas haverá a colheita.

Peçamos, pois, a graça contida na oração deste domingo: fé fervorosa para reconhecer a verdade; esperança firme para nunca desesperar da misericórdia; caridade ardente para corrigir sem odiar e suportar sem consentir no erro.

E, em vez de gastarmos nossas forças apenas procurando o joio no campo dos outros, perguntemos sinceramente: sou trigo bom no campo do Senhor? Minha presença alimenta ou contamina? Minhas palavras semeiam verdade ou confusão? Minha vida conduz as pessoas a Cristo ou as afasta dele?

Que a Virgem Maria, terra inteiramente pura e fecunda, nos ensine a acolher a Palavra, a conservar a graça e a perseverar na comunhão da Igreja. Assim, quando chegar a colheita, possa cumprir-se também em nós a promessa do Senhor: “Os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43).

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

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