A MESA DA PALAVRA – Vigília da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria

A MESA DA PALAVRA
Vigília da Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria
Itumbiara, 15 de agosto de 2026
[Oração pelas vocações à vida consagrada].

Caros amigos,

 

  1. “Olhando para a humildade da Virgem Maria…”

A oração Coleta parece colocar em nossas mãos a chave desta missa vigilar: “Ó Deus, olhando para a humildade da Virgem Maria, a elevastes à dignidade de Mãe do Verbo encarnado e a coroastes hoje de incomparável glória”. Nestas poucas palavras está quase todo o caminho de Maria: Deus olhou para a sua humildade, fez nela grandes coisas e, hoje, a Igreja a contempla na glória. Aquela que se chamou “serva do Senhor” é elevada como Mãe do Verbo encarnado; aquela que não procurou a própria grandeza é engrandecida por Deus; aquela que se entregou inteiramente ao Senhor é por Ele inteiramente acolhida na glória.

As palavras da Coleta fazem-nos recordar imediatamente o Magnificat: “Olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Deus a encontra na pequenez de Nazaré, acolhe o seu “faça-se em mim segundo a tua palavra” e realiza nela as suas maravilhas. Maria não procura elevar-se, e Deus a eleva; não busca a própria glória, e o Todo-poderoso faz nela grandes coisas. Assim são os caminhos de Deus: a humildade que se entrega à graça torna-se caminho para a glória.

Por isso, ao contemplarmos Maria elevada ao céu, não podemos esquecer a humilde casa de Nazaré. De algum modo, o céu da Assunção começa naquele “sim” da Anunciação. Entre Nazaré e a glória permanece uma mesma disposição do coração: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38). Maria colocou-se inteiramente nas mãos de Deus, e Deus conduziu à plenitude a obra que nela havia começado.

Mas a Coleta não nos permite contemplar este mistério apenas de longe. Depois de recordar a glória de Maria, a Igreja suplica que também nós, “salvos pelo mistério da redenção”, mereçamos, por suas preces, ser glorificados. A glória da Mãe torna-se esperança para os filhos: contemplamos nela aquilo que a graça de Cristo é capaz de realizar e reconhecemos o termo para o qual também nós caminhamos. É para este mistério de uma criatura inteiramente acolhida por Deus que a primeira leitura nos oferece uma imagem antiga e luminosa: a Arca do Senhor que sobe para o lugar de seu repouso.

  1. “Subi, Senhor, para o lugar de vosso pouso, subi com vossa arca poderosa!”

A primeira leitura conduz-nos à entrada solene da Arca da Aliança em Jerusalém. Davi reúne Israel; os levitas transportam a Arca conforme a prescrição da Lei; cantores e instrumentos acompanham a procissão e, quando ela é colocada na tenda preparada para recebê-la, oferecem-se sacrifícios diante de Deus. Toda a cena é marcada pela alegria, porque a Arca, sinal da presença divina no meio do povo, é introduzida no lugar que lhe havia sido preparado. O Salmo responsorial interpreta este acontecimento: “Subi, Senhor, para o lugar de vosso pouso, subi com vossa arca poderosa!”.

A tradição cristã reconheceu muito cedo na Arca uma figura da Bem-aventurada Virgem Maria. Se a antiga Arca continha os sinais da Aliança, Maria trouxe em seu seio o próprio Mediador da nova e eterna Aliança; se a Arca manifestava a presença do Senhor no meio de Israel, em Maria realiza-se algo incomparavelmente maior, pois “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Ela é a Arca da Nova Aliança porque ofereceu a sua própria humanidade como morada ao Filho eterno do Pai.

A Arca é introduzida no lugar de seu repouso; Aquela que foi morada do Verbo na terra é agora introduzida por Deus na morada celeste. A tradição dos Padres contemplou com predileção esta imagem. Santo André de Creta chama Maria de nova Arca da glória de Deus: já não traz as tábuas da Lei, o maná e a vara de Aarão, mas o próprio Verbo feito carne. Aquela que trouxe em si o Senhor da glória é agora conduzida por Ele à glória. A Arca encontrou, enfim, o seu repouso.

Há, porém, algo ainda mais profundo. Maria não foi Arca somente porque trouxe Cristo em seu corpo; foi Arca porque primeiro o acolheu na fé. É para este mistério interior da Mãe do Senhor que nos conduz o Evangelho. Diante de Jesus, uma mulher levanta a voz no meio da multidão e exclama: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!” O Senhor responde: “Muito mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Cristo não diminui o elogio dirigido à sua Mãe, mas revela a razão mais profunda de sua bem-aventurança: Maria não somente trouxe o Verbo em seu ventre; ouviu, acolheu e guardou a Palavra, fazendo de toda a sua existência uma resposta obediente à vontade do Pai.

Antes de conceber o Verbo em seu ventre, Maria o acolheu pela fé. O “faça-se em mim segundo a tua palavra” pronunciado em Nazaré não foi a resposta de um instante, mas a disposição fundamental de toda a sua existência, da Anunciação ao Calvário. Maria é verdadeiramente Arca porque guarda a Palavra, não em tábuas de pedra, mas no coração e na vida.

A glória que contemplamos na Assunção é, assim, a consumação de uma existência inteiramente aberta à Palavra e à vontade de Deus. E a resposta de Jesus torna-se também um convite à Igreja: “Felizes aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Aquilo que se realizou perfeitamente em Maria é também o caminho oferecido aos discípulos de seu Filho.

III. “A morte foi tragada pela vitória”

Se a primeira leitura nos oferece a figura da Arca e o Evangelho nos revela o fundamento da bem-aventurança de Maria, a segunda leitura situa a Assunção em seu verdadeiro centro: a Páscoa de Cristo. São Paulo proclama: “A morte foi tragada pela vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?”; e logo esclarece de onde procede esta vitória: “Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória pelo Senhor nosso, Jesus Cristo”. A Assunção é, antes de tudo, um mistério de Cristo realizado em Maria. Toda a grandeza da Mãe procede da graça do Filho; a vitória que nela resplandece é a vitória pascal de Cristo.

É neste horizonte que a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de Pio XII, contempla o mistério da Assunção. A singular união da Mãe com o Filho, iniciada na Encarnação e manifestada em sua associação à obra redentora, encontra na sua glorificação uma expressão definitiva da vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte. A Assunção é, portanto, um mistério profundamente pascal: não celebramos simplesmente a elevação de Maria, mas a vitória de Cristo nela. A morte não possui a última palavra, nem o sepulcro constitui o destino definitivo do homem. Em Maria, a vitória prometida pelo Apóstolo já resplandece em sua plenitude.

A súplica da Coleta, porém, faz dessa contemplação uma esperança para nós: “concedei que, salvos pelo mistério da redenção, mereçamos, por suas preces, ser por vós glorificados”. Embora a Assunção seja um privilégio singular da Mãe do Senhor, nela vemos antecipado o destino para o qual a Redenção conduz aqueles que pertencem a Cristo. A glória da Mãe ilumina a esperança dos filhos, aquela que professamos no Símbolo da fé: “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna”.

A esperança cristã alcança o homem inteiro. Este nosso corpo, que conhece o trabalho e o repouso, a alegria e a dor, a saúde e a enfermidade, a juventude e a velhice, e que finalmente é entregue à terra, foi também alcançado pela Redenção e está destinado à ressurreição. Por isso, a fragilidade do corpo não é sinal de uma derrota definitiva. Quando “este ser corruptível estiver vestido de incorruptibilidade e este ser mortal estiver vestido de imortalidade”, a vitória de Cristo manifestar-se-á plenamente também naqueles que lhe pertencem. Maria é, assim, imagem escatológica da Igreja: nela contemplamos antecipadamente aquilo que a Igreja inteira espera ser na consumação dos tempos.

E a sua glorificação não a afasta daqueles que ainda peregrinam. São Germano de Constantinopla contempla precisamente esta proximidade da Mãe elevada ao céu. A Antífona de Entrada proclama: “Coisas gloriosas se dizem de ti, ó Maria, que foste hoje exaltada acima dos Anjos, e triunfas com Cristo para sempre”. Exaltada acima dos Anjos, Maria não deixa de ser Mãe; elevada à glória, permanece próxima dos filhos e intercede por aqueles que ainda caminham.

Maria, portanto, não está apenas acima de nós; está à nossa frente. Ela chegou onde esperamos chegar, contempla aquilo que esperamos contemplar e participa plenamente daquela vida que esperamos receber. A sua glória não cria distância: torna-se para a Igreja sinal de esperança e estímulo no caminho.

  1. “Feliz o ventre da Virgem Maria que trouxe o Filho do Pai eterno”

A celebração conduz-nos, finalmente, à Eucaristia. A Antífona da Comunhão retoma a exclamação do Evangelho: “Feliz o ventre da Virgem Maria que trouxe o Filho do Pai eterno”. A Igreja coloca estas palavras em nossos lábios precisamente quando nos aproximamos da Mesa eucarística, pois o Filho eterno do Pai, que Maria recebeu em seu ventre, entrega-se agora a nós no Sacramento de seu Corpo e Sangue. Aquela que se tornou morada do Verbo ensina a Igreja a recebê-lo, e a contemplação da Arca da Nova Aliança leva-nos a perguntar: que morada encontra Cristo quando vem a nós?

Receber a Eucaristia é permitir que a vida de Cristo transforme a nossa vida. Ouvir a Palavra e guardá-la, receber o Corpo do Senhor e deixar-nos configurar àquele que recebemos são dimensões inseparáveis da existência cristã. A oração depois da Comunhão chama a Eucaristia de “mesa celeste”: ainda peregrinos na terra, participamos do alimento do céu e contemplamos em Maria aquela que já foi inteiramente introduzida na glória. A Eucaristia torna-se, assim, alimento para o caminho até aquela plenitude para a qual Deus nos chama.

A Liturgia desta Vigília permite-nos contemplar, numa admirável unidade, Maria como Arca da Nova Aliança, porque acolheu em si o Verbo de Deus; como discípula bem-aventurada, porque ouviu a Palavra e a guardou na obediência da fé; e como Mãe glorificada, porque nela resplandece a vitória pascal de Cristo.

Tudo começa com o olhar de Deus sobre a humildade de sua serva e tudo se abre para a esperança da Igreja. Entre Nazaré e a glória encontra-se toda a peregrinação de Maria; e, de certo modo, nela se ilumina também a nossa. A Arca chegou ao lugar de seu repouso; a humilde serva foi exaltada; aquela que guardou a Palavra na fé contempla agora o Verbo face a face.

A Mãe glorificada permanece diante da Igreja peregrina como sinal seguro de esperança. Não fomos criados para a morte, mas para a vida; não para a corrupção, mas para a ressurreição; não para o nada, mas para a plena comunhão com Deus. Caminhamos, sustentados pela graça de Cristo e acompanhados pela intercessão de sua Mãe, até o dia em que também em nós se cumpra a palavra do Apóstolo: “A morte foi tragada pela vitória. […] Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória pelo Senhor nosso, Jesus Cristo”.

 

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.