A MESA DA PALAVRA
XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 8 de novembro de 2026
“Vigiai, portanto, porque não sabeis o dia, nem a hora”
Caros amigos,
- Dediquemo-nos com plena disposição ao serviço do Senhor” (cf. Coleta).
Diariamente suplicamos com o salmista: “Chegue à vossa presença, Senhor, a minha oração; inclinai vosso ouvido à minha prece” (Sl 87,3). Nesse espírito, a Igreja inicia a celebração eucarística com a coleta, reunindo as súplicas dos fiéis e apresentando a Deus as necessidades de seu povo.
A coleta dirige-se ao Deus de poder e misericórdia e pede que afaste as adversidades que dificultam nosso serviço. Necessitamos de sua graça para corresponder à vocação recebida: preocupações, provações e enfermidades podem consumir nossas forças; apegos desordenados e tibieza espiritual podem enfraquecer nossa união com Deus.
As responsabilidades familiares, o trabalho e os deveres cotidianos também pertencem ao serviço de Deus. A Igreja nos pede para servi-lo nessas circunstâncias, sem separar a oração do restante da vida. A coleta abrange, assim, toda a nossa existência, de alma e corpo: não apenas as obrigações religiosas, mas tudo o que fazemos e podemos oferecer a Ele.
Ao nos aproximarmos do encerramento do ano litúrgico, essa oração volta nosso olhar para a vinda gloriosa de Cristo. A vida presente é tempo de graça e de preparação para comparecermos diante do Senhor. Aguardamos o Esposo servindo a Deus, perseverando em sua amizade e cumprindo fielmente sua vontade.
- “A Sabedoria é encontrada por aqueles que a procuram” (cf. Sb 6,12).
Não somos apenas nós que procuramos a Sabedoria: ela também vem à nossa procura. A primeira leitura descreve-a resplandecente e sempre viçosa, acessível àqueles que a buscam com amor. Mas não a apresenta imóvel, à espera de ser descoberta. Ela se antecipa, dá-se a conhecer e sai ao encontro de quem a procura.
A tradição cristã reconhece em Jesus Cristo a Sabedoria de Deus, por meio de quem todas as coisas foram criadas e no qual encontramos a plenitude da revelação divina (cf. 1Cor 1,24.30). É Deus quem toma a iniciativa de vir ao encontro da humanidade. Aquele que procuramos já se aproxima de nós e nos chama à comunhão consigo.
O salmo responsorial exprime a disposição de alma que deve acompanhar essa busca: “A minh’alma tem sede de vós, e vos deseja, ó Senhor”. É a oração de quem compreendeu que nenhuma realidade criada pode saciar inteiramente o coração humano. O salmista procura o Senhor desde a aurora, deseja contemplar sua glória e recorda, durante as vigílias da noite, o auxílio e a proteção que sempre recebeu de suas mãos.
A sede de Deus acompanha toda a peregrinação cristã. O Senhor já veio ao nosso encontro na humildade de nossa condição humana; permanece conosco por sua Palavra e pelos sacramentos; e virá novamente, revestido de glória, para estabelecer definitivamente seu Reino.
O Catecismo da Igreja Católica recorda que o Reino de Cristo já está presente na Igreja, embora ainda aguarde sua manifestação definitiva em poder e glória. Cristo venceu o pecado e a morte por sua Páscoa, mas esperamos que todas as coisas lhe sejam plenamente submetidas e que se manifestem os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça (cf. CIC, 671-672; Lumen gentium, 48).
Vivemos, portanto, no tempo do Espírito Santo e do testemunho, num mundo ainda marcado pelo sofrimento e pelas provações. A Igreja caminha na história, sustentada pela promessa de Cristo e animada pela esperança de sua vinda. Por isso, a oração que brota de seu coração é aquela que encontramos no Apocalipse: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
III. “Deus trará de volta, com Cristo, os que através dele entraram no sono da morte” (1Ts 4,14).
A segunda leitura introduz uma consideração essencial para compreendermos a esperança cristã. São Paulo escreve aos tessalonicenses para consolá-los diante da morte de alguns membros da comunidade. A separação daqueles que amamos causa naturalmente tristeza; o próprio Senhor chorou diante do túmulo de seu amigo Lázaro. Entretanto, o cristão não deve entregar-se à tristeza daqueles que não têm esperança.
O fundamento dessa esperança é a ressurreição de Jesus. São Paulo recorda uma verdade que constitui o centro da nossa fé: “Se Jesus morreu e ressuscitou – e esta é nossa fé – de modo semelhante Deus trará de volta, com Cristo, os que através dele entraram no sono da morte”.
A ressurreição de Cristo não é um acontecimento isolado, destinado exclusivamente à sua humanidade santíssima. Ele é o primogênito dentre os mortos e as primícias daqueles que adormeceram. Sua vitória abre para nós o caminho da vida eterna.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que a profissão de fé na ressurreição dos mortos pertence ao próprio núcleo do Credo cristão. Cremos firmemente que, assim como Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos e vive para sempre, também os justos viverão eternamente com Ele e serão ressuscitados no último dia (cf. CIC, 988-991).
Essa ressurreição alcançará também nossos corpos mortais. Deus não nos criou para uma existência incompleta, nem a salvação consiste simplesmente na sobrevivência da alma. A redenção realizada por Cristo abraça o homem inteiro, e também nosso corpo será revestido de incorruptibilidade pelo poder do Espírito Santo (cf. Rm 8,11).
São Paulo descreve, com imagens de grande solenidade, a vinda do Senhor: ao som da trombeta, Cristo descerá do céu, os mortos ressuscitarão e todos os que lhe pertencem serão reunidos para o encontro definitivo com Ele. E o Apóstolo conclui com palavras que resumem toda a esperança cristã: “E assim estaremos sempre com o Senhor”.
A promessa da ressurreição não torna indolor a separação de quem amamos. A morte continua a causar sofrimento; para aqueles que morreram em Cristo, porém, essa separação não é definitiva. Fomos criados e redimidos para viver eternamente com Ele. É essa promessa que nos permite perseverar nas provações e viver o presente sem tomar a morte como a última palavra sobre nossa existência.
É precisamente para esse encontro que devemos preparar nossa vida. O Evangelho apresenta-nos, então, a imagem comovente do Esposo que chega durante a noite.
- “O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!” (Mt 25,6).
A parábola das dez jovens constitui um dos ensinamentos mais expressivos de Jesus acerca da vigilância. Todas saem ao encontro do Esposo; todas levam suas lâmpadas; todas aguardam a chegada daquele que deve conduzi-las à festa das núpcias. A demora, porém, prolonga a espera, e todas acabam adormecendo. Quando se ouve o anúncio de que o Esposo está chegando, as jovens se levantam para preparar suas lâmpadas.
A diferença entre elas aparece justamente nesse momento: cinco haviam levado consigo o óleo necessário para manter as chamas acesas; as outras cinco, imprevidentes, não se haviam preparado suficientemente.
É importante observar que Jesus não censura o fato de todas terem adormecido. A diferença decisiva está na preparação anterior à chegada do Esposo. As jovens prudentes haviam previsto o que seria necessário para perseverar na espera; as outras descobriram tarde demais a insuficiência de sua preparação.
Santo Agostinho, comentando esta parábola, detém-se justamente na ordem do Senhor: “Vigiai”. Se todas as jovens adormeceram, em que consiste, então, essa vigilância? O santo Bispo responde: “Vigiai com o coração, vigiai com a fé, vigiai com a esperança, vigiai com a caridade, vigiai com as boas obras” (Sermão 93, 17).
A lâmpada, por si só, não mantém a chama: precisa de óleo. Agostinho reconhece nesse óleo a caridade, que dá consistência à vida cristã e faz resplandecer as boas obras. Assim se compreende a vigilância: não como uma tensão exterior permanente, mas como atenção a Deus que permanece nas ocupações ordinárias e se exprime no amor. Não basta possuir a lâmpada; é necessário conservar aquilo que a mantém acesa.
A fé precisa ser alimentada pela oração, pela escuta da Palavra, pela participação nos sacramentos e pela prática perseverante da caridade. Cada dia oferece ocasiões para crescer na amizade com Deus, cumprir seus mandamentos e servi-lo com fidelidade. A preparação para a eternidade realiza-se precisamente nessa fidelidade cotidiana.
A parábola, entretanto, contém uma advertência particularmente séria: enquanto as jovens imprevidentes saíram à procura do óleo, o Esposo chegou e a porta se fechou. A imagem recorda-nos que a vida terrena é o tempo da graça e da conversão. Não conhecemos o dia nem a hora em que seremos chamados a comparecer diante de Deus. Por isso, não podemos adiar indefinidamente nossa resposta ao Senhor.
O Catecismo da Igreja Católica recorda que essa incerteza constitui um apelo à responsabilidade no uso de nossa liberdade e à conversão sincera, a fim de merecermos entrar com Cristo no banquete das núpcias eternas (cf. CIC, 1036). A oração mantém viva essa vigilância, pois o discípulo permanece atento àquele que veio na humildade da carne e que voltará na glória (cf. CIC, 2612).
A imagem do Esposo confere à espera cristã uma particular beleza. Não aguardamos simplesmente o término de nossa peregrinação terrestre; aguardamos o próprio Cristo, que nos amou e se entregou por nós. A festa das núpcias representa a comunhão definitiva com Deus, para a qual fomos chamados desde toda a eternidade.
Caros amigos, o Senhor virá. Preparemo-nos para recebê-lo. Temos sede de Deus e procuramos a Sabedoria; esperamos a ressurreição porque Cristo venceu a morte. Perseveremos no serviço de Deus, conservando acesa a lâmpada enquanto aguardamos o Esposo.
Essa vigilância se realiza na oração, na escuta da Palavra, nos sacramentos e no cumprimento dos deveres, com prontidão para fazer a vontade de Deus. Assim, a espera se torna tempo de santificação.
Na Mesa Eucarística, recebemos Cristo, aquele que esperamos e que nos alimenta na peregrinação. A oração depois da Comunhão pede que, pela força do Espírito Santo, perdure em nós a santidade recebida neste Sacramento.
Peçamos uma fé perseverante e um coração fiel ao Senhor. Que as preocupações não apaguem nosso desejo de Deus, nem as provações enfraqueçam nossa esperança; que não nos falte o óleo para manter acesa a lâmpada. Que a Santa Mãe de Deus, interceda por nós e nos ajude a perseverar na fé e na caridade, para que estejamos prontos a acolher o seu Filho quando vier.
E quando se fizer ouvir o anúncio: “O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!”, possamos levantar-nos com alegria e entrar com Ele na festa das núpcias eternas. Amém.

