A MESA DA PALAVRA – Comemoração de todos os Fiéis Defuntos

A MESA DA PALAVRA
Comemoração de todos os Fiéis Defuntos

Itumbiara, 2 de novembro de 2026

“Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,25).

Caros amigos,

 “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,25)

 

Neste dia, a Igreja nos reúne em oração para recordar os nossos irmãos e irmãs falecidos e oferecer, em sufrágio por eles, o santo sacrifício da Eucaristia. É uma celebração marcada pela dor da saudade e pela serena esperança da ressurreição. Recordamos aqueles que fizeram parte de nossa vida, com quem partilhamos alegrias, trabalhos, dificuldades e afetos. A separação provocada pela morte deixa em nós uma dor verdadeira, que a fé cristã não procura esconder. Entretanto, a Palavra de Deus nos convida a olhar para além da sepultura e a reconhecer, em Cristo, a promessa de uma vida que não termina.

A primeira leitura nos apresenta Jó, homem profundamente provado pelo sofrimento, que, em meio às suas aflições, proclama uma das mais consoladoras afirmações da esperança bíblica: “Eu sei que o meu Redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó. […] Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão” (Jó 19,25-27).

Jó não fala a partir de uma situação de tranquilidade. Ele se encontra mas no meio da tribulação. Ele conhece a dor, experimenta a perda e parece não encontrar explicação para aquilo que lhe acontece. Contudo, sua confiança permanece ancorada em Deus. Ele sabe que sua vida permanece nas mãos de Deus e confia que o Senhor, seu Redentor, o fará levantar-se do pó e contemplar a sua face

A palavra Redentor possui, nessa passagem, uma riqueza especial. No antigo Israel, o Go’el (גֹּאֵל) era aquele que assumia a defesa de um familiar, resgatava o que havia sido perdido e restabelecia os seus direitos. Jó proclama sua confiança naquele que não o abandonará.

Nós, iluminados pela revelação do Novo Testamento, reconhecemos em Jesus Cristo o nosso Redentor: aquele que assumiu nossa condição humana, entrou na realidade de nossa morte e, ressuscitando, abriu-nos o caminho da vida eterna.

Por isso, a esperança cristã não é um desejo vago de que tudo termine bem. Ela se fundamenta num acontecimento: Jesus Cristo morreu e ressuscitou. Nele, a morte foi vencida e a vida recebeu uma promessa que ultrapassa os limites de nossa existência terrena, pois que “não temos aqui cidade permanente” (Hb 13,14).

  1. “Pelo Batismo, fomos sepultados com ele na morte” (Rm 6,4)

Na segunda leitura, São Paulo nos apresenta o fundamento sacramental dessa esperança. Pelo Batismo, fomos incorporados a Cristo e participamos de sua morte e ressurreição: “Pelo Batismo, na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6,4).

O Batismo não é apenas um rito que assinala o início de nossa pertença à Igreja. É o sacramento pelo qual somos unidos a Cristo, libertados do pecado e introduzidos numa vida nova. Desde então, nossa existência está vinculada ao mistério pascal do Senhor. Morremos com Ele para o pecado e começamos a viver para Deus.

Essa união deve amadurecer durante toda a nossa peregrinação. Cada esforço para vencer o pecado, cada renúncia feita por amor a Deus, cada ato de caridade e cada fidelidade à vontade divina constituem uma participação na vida de Cristo. O cristão aprende, assim, a morrer com Cristo para viver com Ele.

Santo Ambrósio, na leitura que a Igreja oferece hoje no Ofício das Leituras, medita precisamente sobre essa união. Ao contemplar a morte de seu irmão Sátiro, o grande bispo de Milão recorda que, para o cristão, morrer com Cristo significa participar de sua vida. À luz das palavras de São Paulo – “Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro” (Fl 1,21) –, ensina-nos a compreender a morte a partir da esperança da ressurreição.

Essa doutrina não nos impede de sentir a dor da separação. Santo Ambrósio não nos convida à insensibilidade diante da morte. A saudade daqueles que amamos é legítima e manifesta a profundidade dos vínculos que nos uniram. A fé, porém, transforma o sentido de nossa tristeza: choramos porque perdemos a presença daqueles que amamos, mas não os entregamos ao esquecimento nem ao desespero. Confiamos que pertencem a Deus e os acompanhamos com nossa oração.

O Prefácio I dos Fiéis Defuntos que rezamos nesta missa de hoje exprime admiravelmente essa certeza: “Nele brilha para nós a esperança da feliz ressurreição; e, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade futura consola”. A Igreja reconhece a tristeza que acompanha a morte e, ao mesmo tempo, proclama a consolação que vem de Cristo.

O mesmo prefácio ensina que, para aqueles que creem, a vida não é tirada, mas transformada. Essa afirmação merece ser acolhida em toda a sua profundidade. A esperança cristã não se limita à sobrevivência da alma: aguardamos a ressurreição dos mortos, a restauração de nossa humanidade e a participação na glória de Cristo. O Senhor nos chama à vida eterna, na qual o homem, em sua integridade, encontrará a plenitude para a qual foi criado.

III. “Acolhei-os junto a vós na luz da vossa face” (Oração Eucarística III)

A esperança da ressurreição explica por que a Igreja dedica este dia à oração pelos falecidos. Não nos reunimos somente para recordar aqueles que partiram, mas também para interceder por eles diante de Deus. A caridade cristã não termina com a morte. Permanecemos unidos na comunhão dos santos, que reúne os fiéis peregrinos na terra, aqueles que se encontram em processo de purificação e os que já participam da glória celeste.

Por isso, a Igreja oferece o sacrifício eucarístico em sufrágio dos falecidos. Na Eucaristia, torna-se presente o sacrifício de Cristo, nossa redenção. Unidos a Ele, apresentamos ao Pai nossas súplicas por aqueles que morreram na esperança da ressurreição.

É particularmente significativo o modo como a Oração Eucarística III formula essa intercessão: “Lembrai-vos também, na vossa misericórdia, dos nossos irmãos e irmãs que adormeceram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida; acolhei-os junto a vós na luz da vossa face”.

Observemos a amplitude dessa oração. A Igreja pede por aqueles que morreram na esperança da ressurreição e também por todos os que partiram desta vida. Ninguém é excluído de sua intercessão. Entregamos à misericórdia divina os nossos familiares, os amigos, os sacerdotes, os religiosos, os benfeitores, aqueles que morreram sem receber a homenagem de uma despedida e também os que partiram em circunstâncias dolorosas ou inesperadas.

A expressão “acolhei-os junto a vós na luz da vossa face” indica o destino último de nossa esperança. A felicidade eterna consiste em estar com Deus, contemplar seu rosto e participar de sua vida. É essa a realidade que Jó entrevê quando proclama: “Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão”.

A oração eucarística prossegue e, depois de interceder pelos falecidos, pede também para nós a participação na vida eterna, em companhia da Virgem Maria, de São José, dos Apóstolos e de todos os santos. Percebemos, assim, a unidade da Igreja: rezamos pelos que partiram, caminhamos na fé durante nossa peregrinação e esperamos alcançar, pela misericórdia divina, a mesma comunhão de vida.

Esta é também uma ocasião para renovar nossa compreensão do sufrágio pelos falecidos. A Igreja ensina que aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda não estão plenamente purificados, passam por uma purificação antes de entrar na alegria do Céu. Por eles oferecemos nossas orações, nossas boas obras e, sobretudo, o sacrifício eucarístico. Não se trata de alterar o juízo de Deus, mas de exercer a caridade em favor daqueles que continuam unidos a Cristo.

Assim, a celebração de hoje nos convida a transformar a saudade em oração. Aqui, na Catedral de Itumbiara, convido cada família a oferecer sufrágios por seus falecidos: rezemos por eles, ofereçamos boas obras em sua intenção e, sobretudo, o santo sacrifício da Missa. Não deixemos essa oração somente para o dia de Finados. Confiemos sua história à misericórdia de Deus e permaneçamos unidos a eles na esperança da ressurreição.

  1. “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12,35)

O Evangelho nos apresenta Jesus dirigindo aos discípulos uma exortação à vigilância: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento” (Lc 12,35-36). A imagem é expressiva. O discípulo deve viver preparado para acolher o Senhor, como o servo que espera o regresso de seu senhor e permanece atento para abrir-lhe a porta. Jesus proclama felizes aqueles que forem encontrados vigilantes quando Ele chegar.

A morte recorda-nos que nossa existência terrena é uma peregrinação. Não somos donos do tempo nem conhecemos o momento de nosso encontro definitivo com Deus. A vigilância cristã consiste em viver na amizade do Senhor, conservar a fé, perseverar na caridade e cumprir com fidelidade os deveres de cada dia.

As lâmpadas acesas de que fala o Evangelho podem recordar-nos a fé que ilumina nossa caminhada. Mantê-las acesas significa permanecer unidos a Cristo pela oração, alimentar-nos de sua Palavra, participar dos sacramentos e praticar a caridade. Assim, o encontro com o Senhor não será uma realidade estranha à nossa existência, mas a plenitude de uma amizade cultivada ao longo da vida.

A solenidade de Todos os Santos, celebrada ontem, apresentou-nos a multidão daqueles que já chegaram à glória. Hoje, ao rezarmos pelos fiéis defuntos, recordamos que também nós estamos a caminho dessa pátria celeste. A Igreja peregrina na terra não perde de vista aqueles que a precederam na fé e aguarda, com esperança, o dia em que todos os filhos de Deus estarão reunidos em Cristo.

Caros irmãos e irmãs, entreguemos, portanto, nossos falecidos à misericórdia do Senhor. Que Ele acolha na luz de sua face aqueles por quem hoje rezamos e conceda às famílias enlutadas a consolação que procede da fé. Peçamos também a graça de viver com as lâmpadas acesas, perseverantes na caridade e firmes na esperança.

Que a Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos acompanhe nesta peregrinação. E que, ao chegar o momento de nosso encontro definitivo com Cristo, possamos contemplar, juntamente com todos os santos e fiéis defuntos acolhidos na glória, o rosto daquele que é nosso Redentor e nossa vida. “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,25).

            Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

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