A MESA DA PALAVRA – Solenidade de Todos os Santos

A MESA DA PALAVRA
Solenidade de Todos os Santos

Itumbiara, 1º de novembro de 2026

 “Alegrai-vos e exultai…”

Caros amigos,

a Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração de todos os fiéis defuntos colocam diante dos nossos olhos o horizonte definitivo da existência humana: a vida eterna. O homem traz no coração uma sede de eternidade que nada neste mundo é capaz de saciar. Os bens que possuímos, os afetos que cultivamos e as realizações de que nos orgulhamos têm o seu valor, mas permanecem sujeitos à fragilidade do tempo. A morte parece impor um limite a tudo aquilo que amamos.

Contudo, a fé cristã ensina-nos a olhar para além desse limite. Em Jesus Cristo, que é a Ressurreição e a Vida, Deus entrou na nossa história, assumiu a nossa condição mortal e abriu-nos o caminho para a eternidade. Por isso, quem crê em Cristo não contempla a morte como o desaparecimento de toda esperança, mas à luz da promessa de vida que o Senhor fez aos seus amigos.

  1. “Vós nos concedeis venerar os méritos de todos os vossos santos em uma só celebração”.

A coleta desta solenidade põe em evidência um aspecto fundamental da nossa fé: ao reunir numa única celebração todos os santos, a Igreja louva a Deus pelas maravilhas que realizou na vida de seus servos. A santidade que neles veneramos é, antes de tudo, manifestação da graça divina. Não celebramos os santos como autores independentes da própria glória, mas como testemunhas da obra de Deus, que os chamou, santificou e conduziu à plenitude da vida eterna.

Muitos de nossos irmãos e irmãs tiveram sua santidade reconhecida oficialmente pela Igreja mediante a canonização e são venerados nos altares. Muito mais numerosa, porém, é a multidão daqueles que, sem terem recebido esse reconhecimento público, alcançaram a bem-aventurança eterna e contemplam a face de Deus. Também por eles a Igreja eleva hoje seu louvor ao Senhor e celebra as maravilhas de sua graça.

Esta celebração introduz-nos no mistério da comunhão dos santos: o vínculo sobrenatural que nos une a Cristo e, nele, a todos os membros do seu Corpo. Não somos indivíduos isolados, cada qual caminhando por conta própria. Somos uma família espiritual reunida por Cristo, alimentada pela mesma graça e destinada à mesma glória.

O mês de novembro, tão profundamente ligado à memória dos falecidos, convida-nos a exercitar a virtude da esperança cristã. Há irmãos nossos que morreram na graça de Deus, mas ainda necessitam da purificação final antes de alcançarem a plena bem-aventurança. Por isso, a Igreja nos ensina a rezar pelos fiéis defuntos, oferecendo especialmente o Sacrifício da Santa Missa, nossas orações, esmolas e obras de penitência. Podemos também aplicar-lhes as indulgências, segundo as condições estabelecidas pela Igreja.

Amanhã, dia de Finados, ao visitarmos os cemitérios, teremos a oportunidade de realizar uma singular obra de misericórdia espiritual, oferecendo sufrágios pelas almas dos nossos irmãos falecidos. Ao rezarmos por nossos queridos parentes falecidos, professamos nossa fé na comunhão dos santos e elevamos ao Senhor nossa súplica: que os acolha na alegria da sua presença.

  1. “A multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas”.

A primeira leitura, extraída do livro do Apocalipse, apresenta-nos uma visão grandiosa: uma multidão incontável, proveniente de todos os povos e nações, de pé diante do trono de Deus e do Cordeiro. O número de cento e quarenta e quatro mil, mencionado anteriormente, exprime simbolicamente a totalidade do povo de Deus; a multidão que aparece em seguida manifesta a universalidade da salvação, oferecida a homens e mulheres de todas as raças, línguas e culturas.

É esta a nossa vocação e o nosso destino: participar do grande Banquete do Cordeiro, da liturgia celeste em que os anjos e os santos louvam eternamente a Deus. A Igreja peregrina, ainda sujeita às provações deste mundo, contempla antecipadamente a Igreja gloriosa, reunida diante do trono divino.

Aquela multidão incontável é o testemunho da santidade que Deus comunica aos homens. A santidade, em sentido absoluto é atributo exclusivo de Deus. Desde a Antiga Aliança, porém, o Senhor quis dar ao seu povo o dom de tomar parte na sua santidade. No Novo Testamento, esse desígnio alcança sua plena realização: pela redenção de Cristo e pelo dom do Espírito Santo, somos consagrados a Deus e feitos participantes de sua vida divina

As vestes brancas da visão do Apocalipse recordam-nos a dignidade batismal. Pelo Batismo, recebemos o selo de Cristo e fomos revestidos da graça que nos faz pertencer a Ele. E nós, mediante a fidelidade cotidiana, somos chamados a conservar e aperfeiçoar essa vida nova.

O Apocalipse revela-nos, porém, que aqueles que chegaram à glória passaram pela grande tribulação e lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. A vitória dos santos não foi conquista de suas próprias forças, mas fruto da graça daquele que venceu o pecado e a morte. É a Páscoa eterna, da qual todos somos chamados a participar.

A visão do Apocalipse ilumina, assim, nossa esperança diante da morte. Sabemos quanto ela pode ser dolorosa, sobretudo quando sobrevém de maneira violenta, prematura ou inesperada. Há acontecimentos que nos deixam perplexos e separações que nos custam aceitar. A fé não nos pede que chamemos bem ao mal, nem que deixemos de sentir a dor da perda. Ensina-nos, porém, a confiar que a misericórdia divina é maior do que aquilo que conseguimos compreender.

Na missa de 3 de novembro de 2025, celebrada em sufrágio dos cardeais e bispos falecidos, Leão XIV pronunciou palavras de particular profundidade: “Nem mesmo a morte mais trágica não pode impedir o nosso Senhor de acolher nos seus braços a nossa alma e transformar o nosso corpo mortal, até o mais desfigurado, à imagem do seu corpo glorioso” (cf. Fl 3,21). Eis a esperança pascal!

Deus não deseja a violência, a injustiça ou o sofrimento que destroem a vida humana. Entretanto, em sua Providência, pode fazer com que mesmo as circunstâncias mais dolorosas sejam alcançadas por sua graça e integradas ao caminho da salvação. Não nos é dado conhecer os desígnios particulares de Deus. Podemos, porém, entregar nossos falecidos à sua misericórdia, confiantes de que nenhuma tragédia está fora do alcance daquele que ressuscitou dos mortos.

Por isso, São Paulo nos ensina que não devemos entristecer-nos como aqueles que não têm esperança (cf. 1Ts 4,13). Choramos a partida dos nossos entes queridos e sentimos a dor da separação. Contudo, nossa esperança permanece firme: Cristo ressuscitou e prometeu acolher os seus na casa do Pai.

III. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus!”

Na segunda leitura, São João ajuda-nos a compreender que a santidade comunicada pela graça de Deus se exprime, antes de tudo, em termos de filiação divina: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” (1Jo 3,1). E acrescenta, cheio de esperança, que ainda não se manifestou plenamente aquilo que seremos, mas sabemos que, quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é (cf 1Jo 3,2).

É a promessa da visão beatífica, a participação na glória da Santíssima Trindade. A santidade humana encontra aí sua origem e seu termo: nasce da graça que nos faz filhos de Deus e amadurece até a plena conformidade com Cristo. A filiação divina recebida pela graça deve amadurecer em toda a nossa existência. Já não somos escravos, mas filhos; já não somos estranhos, mas membros da família de Deus. Por isso, o próprio Jesus, na intimidade da Última Ceia, disse aos seus discípulos: “Já não vos chamo servos (…). Eu vos chamo amigos” (Jo 15,15).

Os santos que hoje celebramos são homens e mulheres que se deixaram transformar por essa amizade divina. Procuraram conservar e aperfeiçoar a graça recebida no Batismo, como ensina o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 40). Sua santidade amadureceu em meio às dificuldades da existência. Também eles passaram pela provação, pelo combate espiritual e pelo mistério da Cruz. Associaram-se à Paixão de Cristo e, sustentados pela graça, perseveraram no amor até o fim.

A mesma Constituição conciliar, ao tratar da índole escatológica da Igreja peregrina, recorda-nos que caminhamos na terra com os olhos voltados para a pátria celeste. A Igreja permanece unida àqueles que já alcançaram a glória e àqueles que ainda passam pela purificação. Entre todos subsiste uma profunda comunhão de caridade, que a morte não destrói (cf. Lumen gentium, 48-50).

Por isso, veneramos os santos, pedimos sua intercessão e rezamos pelos nossos falecidos. Na Eucaristia, essa comunhão alcança sua expressão mais eminente: unidos ao sacrifício de Cristo, participamos antecipadamente da liturgia celeste e nos associamos ao louvor dos anjos e dos santos. É dessa comunhão com Cristo que nasce a força para percorrermos, nesta vida, o caminho da santidade.

  1. “Alegrai-vos e exultai” (Mt 5,12).

No Evangelho de São Mateus, o próprio Jesus nos apresenta o caminho da santidade por meio das Bem-aventuranças. Nelas se manifesta a verdadeira felicidade para a qual fomos criados. É nesse caminho que se realiza a santidade: na pobreza de espírito, na mansidão, na misericórdia, na pureza de coração, na promoção da paz e na fidelidade a Deus, mesmo diante da perseguição.

O Senhor proclama felizes aqueles que o mundo tantas vezes considera infelizes: os pobres, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos e os perseguidos por causa do Evangelho. Aos olhos de Deus, a verdadeira grandeza não está no poder, na riqueza ou no reconhecimento humano, mas na capacidade de amar, de servir e de permanecer fiel.

O céu começa a ser preparado nesta vida, quando acolhemos a graça de Deus e permitimos que ela transforme nossos pensamentos, afetos e atitudes. A bem-aventurança eterna será a plenitude dessa vida nova: a alegria de contemplar Deus face a face, sem as limitações e as sombras próprias da nossa peregrinação terrena.

O Papa Francisco recordou-nos que a santidade não está reservada uns poucos eleitos nem depende de circunstâncias extraordinárias; manifesta-se na fidelidade cotidiana à vontade de Deus. Ao comentar as Bem-aventuranças, especialmente a partir do número 63, o saudoso Pontífice apresenta-nos um precioso itinerário para a vida cristã (cf Gaudete et exsultate, n. 63).

A Solenidade de Todos os Santos nos convida a louvar a Deus pela fidelidade dos santos, a venerá-los e a aprender com eles a viver o Evangelho. Cada um, no estado de vida em que se encontra, é chamado a corresponder à graça de Deus: na vida familiar, no trabalho, no ministério sacerdotal, na vida consagrada e no serviço à comunidade.

Neste caminho de amizade com o Senhor, o nosso olhar volta-se naturalmente para a Virgem Maria, a Toda Santa, a cheia de graça, que correspondeu plenamente ao desígnio divino. Nela contemplamos a realização mais perfeita da santidade entre as criaturas. Seu exemplo e sua intercessão nos animam a prosseguir com confiança no caminho que conduz à glória.

Também nossa Padroeira, Santa Rita de Cássia, nos oferece um testemunho luminoso. Em meio às provações da existência, soube permanecer fiel a Cristo e testemunhar a força transformadora do amor de Deus.

Peçamos, pois, ao Senhor que nos conceda a graça de viver como verdadeiros filhos seus, de perseverar na fé e de alcançar um dia a companhia dos santos na Jerusalém celeste. Que saibamos enfrentar com esperança as provações desta vida, permanecer fiéis ao Evangelho e confiar os nossos à misericórdia divina.

E que a palavra de Cristo ressoe continuamente em nosso coração: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12).

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.