A MESA DA PALAVRA – XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA
XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 13 de setembro de 2026

Eu te perdoei toda a tua dívida” (Mt 18,32).

Caros amigos,

Há dívidas que o dinheiro pode pagar; há feridas que só a misericórdia pode curar. A Palavra de Deus nos põe hoje diante de uma pergunta que atravessa a consciência: como pedir ao Senhor o perdão que recusamos ao irmão? Quem guarda a memória da misericórdia recebida aprende a tornar-se misericordioso.

I.Para sentirmos a ação da vossa misericórdia” (Coleta).

Olhemos primeiramente, meus irmãos, para a belíssima oração da Coleta que rezamos hoje. Ela nos oferece a primeira chave para compreendermos este domingo: “Volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos a ação da vossa misericórdia, dai-nos a graça de vos servir de todo o coração” (Coleta XXIV Domingo comum).

Tudo começa com o olhar de Deus. Antes que o pecador consiga levantar os olhos para o céu, Deus já voltou para ele o seu olhar. Um olhar que conhece a culpa, alcança a ferida e restitui a esperança.

Pedir para sentir a ação da misericórdia é desejar que ela se torne presença concreta em nossa vida: perdoe a culpa, cure a alma e refaça o coração. Por isso, cantamos no salmo: “Ele te perdoa toda culpa e cura toda a tua enfermidade” (Sl 102,3).

Perdão e cura caminham juntos: o pecado fere, dispersa e fecha o coração; a misericórdia restaura, recolhe e devolve a liberdade de amar. Quem acolhe esse olhar recebe também uma missão: servir a Deus “de todo o coração” (Coleta). O coração visitado pela misericórdia aprende a servir; perdoado, torna-se capaz de perdoar.

A Antífona da entrada já havia colocado em nossos lábios esta súplica: “Dai paz, Senhor, aos que em vós esperam” (cf Eclo 36,18). A paz que pedimos precisa encontrar espaço dentro de nós: o rancor prolonga a ofensa; o perdão permite que Deus comece a curá-la.

II.Pensa na aliança do Altíssimo” (Eclo 28,9).

E o livro do Eclesiástico vai ainda mais fundo nessa ferida. Fala com grande franqueza: “Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?” (Eclo 28,3). Eis a contradição que a Palavra deseja arrancar de nosso coração. Apresentamos a Deus nossas fraquezas como feridas dignas de compaixão e, tantas vezes, contemplamos as fraquezas alheias como dívidas que devem ser cobradas até o último centavo. Pedimos compreensão para nós e alimentamos severidade contra o próximo.

O sábio oferece um remédio: recordar. “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar” (Eclo 28,6). “Pensa nos mandamentos” (Eclo 28,7). “Pensa na aliança do Altíssimo” (Eclo 28,9). O rancor alimenta-se de uma memória adoecida: fixa-se na ofensa recebida e esquece a misericórdia alcançada.

A Palavra vem purificar nossa memória: somos mortais, também necessitamos de perdão e vivemos da Aliança daquele que permanece fiel, mesmo quando seus filhos se afastam.

Pensar na Aliança do Altíssimo significa recordar a paciência de Deus com seu povo. Ele corrige, chama à conversão, oferece novamente sua mão e reabre o caminho. Sua misericórdia torna-se a medida de nossas relações.

Perdoar não anula a verdade da ofensa nem as legítimas exigências da justiça e da reparação. São João Paulo II ensina: “A exigência tão generosa em perdoar não anula as exigências objetivas da justiça” (Dives in misericordia, n. 14).

Por isso, perdoar não é apenas esquecer uma ofensa; é recordar a quem pertencemos.

III.Vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8).

Depois de nos recordar a Aliança do Altíssimo, a Palavra nos conduz agora à raiz mais profunda do perdão: nossa pertença a Cristo. São Paulo lembra aos cristãos de Roma que “ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo” (Rm 14,7). De fato, o rancor fecha a pessoa dentro da própria ferida. Aos poucos, a ofensa começa a governar seus pensamentos, suas palavras e suas decisões. Mesmo distante, o ofensor continua ocupando o coração daquele que não consegue perdoar.

O perdão cristão nasce da iniciativa da graça. Leão XIV ensina: “O verdadeiro perdão não espera o arrependimento, mas se oferece primeiro, como dom gratuito, antes mesmo de ser acolhido”. Perdoar significa impedir que o mal recebido produza novo mal. É deixar aberta a porta pela qual a verdade, a conversão e a paz poderão entrar.

O Apóstolo anuncia uma pertença maior: “Vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). Nossa vida pertence a Cristo. Também lhe pertencem nossa memória, nossas feridas, nosso desejo de justiça e nossa necessidade de cura. Senhor dos vivos e dos mortos, Ele deseja reinar também sobre os lugares feridos de nossa alma. Pertencer ao Senhor significa permitir que Cristo seja maior que a ofensa: colocar a dor sob sua Cruz, entregar-lhe o direito de julgar e pedir-lhe um coração livre para fazer o bem.

Ninguém vive para si. Ninguém crê sozinho. Ninguém chega sozinho à salvação. Somos membros do Corpo de Cristo. Quando o rancor divide os irmãos, todo o Corpo sofre. Quando a misericórdia refaz a comunhão, toda a Igreja se alegra.

Perdoar de coração exige uma decisão renovada pela graça. O Beato Álvaro del Portillo, depois de receber a notícia de um grave atentado contra a Universidade de Navarra, indicou um caminho simples e sobrenatural: “Perdoar, de todo o coração, lembrando-nos da paciência de que Deus Nosso Senhor tem conosco, com cada um de nós; e, imediatamente, rezar” (Carta a Florencio Sánchez-Bella, Londres, 13-VII-1980).

Perdoar e rezar: entregar a Deus quem nos feriu, pedir que o Senhor ilumine sua consciência, corrija seus caminhos e lhe conceda a salvação. A oração pelo ofensor liberta o coração e permite que a misericórdia de Deus alcance a ambos.

IV.Eu te perdoei toda a tua dívida

E todo esse caminho desemboca agora no Evangelho. Nele, Pedro apresenta a Jesus uma pergunta concreta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). Notemos bem que Pedro julga estar sendo generoso. Sete é o número da plenitude. Ele imagina que o perdão pode ser contado, registrado e, depois de certo limite, encerrado.

Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22). O Senhor retira o perdão do cálculo: o discípulo vive de uma misericórdia sem medida e aprende a oferecê-la sem manter um livro de cobranças, pois “todos os pecados, quis Ele que fossem perdoados quando os designou pelo número setenta e sete” (S. Agostinho, Sermo 83, 7,7).

A parábola apresenta uma desproporção vertiginosa: o primeiro empregado deve ao rei uma fortuna impossível de pagar; seu companheiro lhe deve apenas cem moedas. Aos pés do rei, pede prazo e promete o que jamais conseguiria cumprir. Então acontece o inesperado: “O patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18,27). Pediu tempo; recebeu liberdade. Pediu adiamento; recebeu perdão.

O drama começa quando esse homem sai da presença do rei. Ele logo encontra um companheiro, agarra-o pelo pescoço e exige: “Paga o que me deves” (Mt 18,28). Recebeu misericórdia, mas não permitiu que ela transformasse seu coração: guardou o benefício, esqueceu o benfeitor e, embora livre diante do rei, continuou escravo da dívida alheia.

Então o rei lhe faz a pergunta que contém toda a parábola: “Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Mt 18,33). O centro está nesta palavra: como. “Como eu tive compaixão de ti”. É também a medida do mandamento novo: “Como eu vos amei” (Jo 13,34).

O cristão perdoa porque foi perdoado. Oferece misericórdia porque vive de misericórdia. Ao recordar quanto recebeu de Deus, encontra a força para abrir as mãos e libertar o irmão de sua cobrança.

O Catecismo adverte: “Esta onda de misericórdia não pode penetrar nos nossos corações enquanto não tivermos perdoado àqueles que nos ofenderam” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2840). Esse perdão alcança o centro da pessoa. Os sentimentos podem precisar de tempo para ser curados; a vontade, sustentada pela graça, pode começar desde já: renunciar à vingança, rezar pelo ofensor e dar o primeiro passo em direção à paz.

Caros amigos, da Mesa da Palavra aproximamo-nos agora da Mesa Eucarística. Deus acolhe o que cada um oferece e o transforma em comunhão. Receberemos o mesmo Corpo e beberemos do mesmo Cálice: “O cálice de bênção que abençoamos é a comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é a participação no Corpo do Senhor” (2ª Antífona da Comunhão; cf 1Cor 10,16).

O Corpo entregue e o Sangue derramado para a remissão dos pecados são o preço de nossa liberdade. Diante deste altar, reconhecemo-nos devedores alcançados pela graça. Santo Agostinho resume toda a parábola: “Todo homem é devedor de Deus e, ao mesmo tempo, tem por devedor o seu irmão” (Sermo 83, 2). O Evangelho nos ensina a contemplar a dívida alheia à luz da misericórdia que recebemos.

Depois da Comunhão, pediremos que em nós prevaleça “não o sentimento, mas a força deste sacramento”. O perdão começa muitas vezes por uma decisão sustentada pela Eucaristia. A força do sacramento move a vontade, ilumina a inteligência e, pouco a pouco, cura também os sentimentos.

Há algum nome que ainda pesa em nosso coração? Alguma ofensa que continuamos repetindo? Coloquemos hoje essa pessoa e essa ferida sobre o altar. Quem pertence ao Senhor pode deixar a prisão do rancor: a misericórdia recebida torna-se misericórdia oferecida; a misericórdia oferecida torna-se paz; e a paz manifesta que Deus reina em nosso coração.

Que a Virgem Maria, Mãe da Misericórdia, nos ensine a guardar no coração a misericórdia recebida e a oferecê-la aos irmãos com humildade e paz.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

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