A MESA DA PALAVRA
XXI Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 23 de agosto de 2026
“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”
Caros irmãos,
Há perguntas que pedem uma informação; outras exigem uma decisão. Quando Jesus pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, os discípulos podem repetir as opiniões em voga. Mas, quando acrescenta: “E vós, quem dizeis que eu sou?”, já não basta dizer o que pensam os outros. Cada discípulo deve responder diante de Deus.
Pedro então confessa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus declara que essa fé lhe foi revelada pelo Pai e, sobre Pedro, que a acolheu e professou, edifica a sua Igreja. A liturgia deste domingo mostra-nos que a fé vem de Deus e é guardada na Igreja pelo ministério confiado a Pedro e a seus sucessores.
- “Concedei ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis”
A Coleta introduz-nos no coração da vida cristã. Antes de falar do que devemos fazer por Deus, a Igreja recorda o que Deus realiza em nós. É Ele quem une os corações, desperta o desejo e concede amar o que ordena. A fé começa por sua iniciativa: Deus abriu-nos seu coração e enviou-nos o Filho Unigênito, Caminho, Verdade e Vida.
Por isso, o Concílio Vaticano II ensina que, para a adesão da fé, são necessários “a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo”, que move o coração e abre os olhos da inteligência (Dei Verbum, 5). Deus ilumina, mas não constrange; chama e espera uma resposta livre. A fé é acolhimento da Palavra, conversão do coração e entrega da vida.
Na fé não escolhemos apenas algumas verdades segundo o nosso gosto: acolhemos o próprio Deus que se revela. Por isso, a Igreja pede algo maior que a força para observar os mandamentos; pede a graça de amá-los. “É Deus quem opera em vós o querer e o agir” (Fl 2,13). Não basta conhecer seus mandamentos; é preciso amá-los. Não basta ouvir suas promessas; é preciso esperar nelas, mesmo sem ver ainda seu cumprimento.
A Coleta reconhece que vivemos “na instabilidade deste mundo”. Mudam as opiniões, passam as modas, alteram-se os costumes. E nós, onde apoiamos o coração? Se o apoiarmos apenas no mundo, vacilaremos com ele. Crer é permitir que Deus firme nossa vida na verdade que não passa, para que amemos o que Ele ordena e esperemos o que promete.
- “Porei aos seus ombros a chave da casa de Davi” (Is 22,22)
Na primeira leitura, Isaías anuncia a escolha de Eliacim como administrador do palácio: “Eu o vestirei com a tua túnica, colocarei nele a tua faixa e porei em suas mãos a tua autoridade. Ele será um pai para os habitantes de Jerusalém”. E acrescenta: “Porei aos seus ombros a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém poderá fechar; ele fechará, e ninguém poderá abrir”. A chave indica uma autoridade verdadeira, mas recebida. A casa pertence ao rei, e o administrador a governa em nome dele. Assim se prepara a palavra do Evangelho. Cristo é o Senhor da casa e a Igreja é sua: “Edificarei a minha Igreja”. A Pedro, porém, confia as chaves do Reino dos Céus.
O Apocalipse apresenta Cristo como aquele que tem “a chave de Davi, que abre e ninguém fecha, que fecha e ninguém abre” (Ap 3,7). Pedro, portanto, não é dono da Igreja. A autoridade que recebe vem de Cristo e deve ser exercida a seu serviço.
Isaías diz ainda que Eliacim será “um pai” para Jerusalém. Também o ministério de Pedro tem essa forma paterna: guardar a casa, proteger os filhos e manter a unidade. Por isso chamamos o Papa Santo Padre. Cabe-lhe confirmar os irmãos, guardar a fé apostólica e apascentar o rebanho de Cristo. As chaves não são apenas uma honra; são uma grave responsabilidade.
III. “D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas” (Rm 11,36)
Depois de contemplar os caminhos da salvação, São Paulo não conclui com uma explicação, mas com um hino de louvor e adoração: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!”.
A fé amadurece quando deixamos de querer ser conselheiros de Deus. Não nos compete decidir o que Ele deveria revelar, quais mandamentos ainda seriam válidos ou como deveria ter instituído sua Igreja. É a Palavra de Deus que deve iluminar e julgar nossa vida. Obedecer na fé é deixar que ela converta nossos pensamentos, afetos e escolhas.
Quantas vezes, porém, fazemos o contrário! Em vez de nos deixarmos julgar pelo Evangelho, julgamos o Evangelho. Acolhemos o que nos consola e rejeitamos o que nos corrige; repetimos as promessas de Cristo, mas silenciamos suas exigências. Que fé seria essa, na qual Deus pode falar somente quando concorda conosco?
A fé coloca-nos diante do Senhor como discípulos: primeiro escutamos; depois, ajudados pela graça, obedecemos. “D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas”. Foi Jesus quem escolheu os Apóstolos e entregou as chaves a Pedro. Não podemos acolher o Senhor e desprezar aquilo que Ele instituiu.
Muitos desejam um Cristo sem Igreja; outros, uma Igreja sem autoridade; outros ainda gostariam que a autoridade apenas repetisse as ideias dominantes. Nada disso corresponde ao desígnio de Deus. A fé exige que abandonemos um cristianismo feito à nossa medida e nos deixemos converter pela verdade de Cristo.
- “Tu és Pedro, e eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16,18-19)
As opiniões da multidão a respeito de Jesus eram respeitosas, mas insuficientes: João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas. Reconheciam um homem de Deus, mas não o Deus feito homem. Pedro, ao contrário, professa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus revela a origem dessa resposta: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas o meu Pai que está nos céus”. Pedro não oferece uma opinião mais engenhosa; acolhe uma luz recebida do alto. Sobre ele, Cristo estabelece o fundamento visível da unidade de sua Igreja.
Não se pode separar Pedro da fé que acaba de professar. O primado está a serviço da verdade recebida dos Apóstolos. Pedro e seus sucessores não podem inventar uma nova fé; devem guardar o depósito da fé e confirmar os irmãos.
Santo Tomás de Aquino escreve: “Para a unidade da Igreja, é necessário que todos os fiéis estejam concordes na fé. Exige-se, portanto, para conservar a unidade da Igreja, que haja um só que presida à Igreja inteira” (Summa contra Gentiles, IV, 76). Cristo quis dar à comunhão da Igreja um sinal visível e permanente.
A firmeza desse ministério não depende da perfeição pessoal daquele que o exerce, mas da fidelidade de Cristo. Pedro conhecerá o medo e a negação; contudo, o Senhor rezará por ele: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Depois da Ressurreição, confiar-lhe-á novamente o rebanho: “Apascenta as minhas ovelhas”.
Sustentado pela oração de Cristo e perdoado depois da queda, Pedro deve confirmar os irmãos e apascentar com humildade o rebanho do Senhor. Seu ministério não nasce de uma superioridade humana, mas da eleição e da misericórdia de Cristo. Os homens passam com suas limitações; o ministério permanece, sustentado pela promessa do Senhor.
O Papa, como Vigário de Cristo, serve à Palavra, à Tradição apostólica e à comunhão da Igreja. Nossa fidelidade a ele não é culto à personalidade, nem aprovação indistinta de toda opinião particular. É fidelidade ao ministério que Cristo instituiu para confirmar a fé e guardar a unidade de seu povo.
Rezemos pelo Papa Leão XIV, para que o Senhor o fortaleça no encargo de apascentar o rebanho e conservar íntegra a fé apostólica. E perguntemo-nos: rezamos pelo Santo Padre ou apenas o julgamos? Procuramos conhecer seu ensinamento ou nos contentamos com frases isoladas? Trabalhamos pela comunhão da Igreja ou aumentamos suas divisões?
Irmãos caríssimos, tudo o que ouvimos na Mesa da Palavra conduz-nos agora ao altar, verdadeira ara da paz, onde celebramos o sacrifício reconciliador de Cristo. Na oração sobre as oferendas pediremos ao Senhor que conceda à Igreja “os dons da unidade e da paz”. A Igreja nasce do único sacrifício de Cristo e é alimentada pelo único Pão vivo descido do céu.
A comunhão eucarística não se separa da comunhão eclesial. Na Oração Eucarística serão pronunciados o nome do Papa e o do Bispo diocesano. Não é simples protocolo: celebramos na Igreja una, santa, católica e apostólica. Ao respondermos “Amém” diante do Corpo de Cristo, renovemos também nosso sim à fé recebida, à Igreja fundada pelo Senhor e à comunhão com Pedro.
Caros irmãos, a pergunta de Cesareia de Filipe ressoa hoje nesta Catedral: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Não respondamos apenas com os lábios. A vida inteira deve confessar com Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Esta é a fé recebida no Batismo, professada pelos Apóstolos e selada pelo sangue dos mártires. Não nos pertence diminuí-la nem escolher somente aquilo que nos agrada; somos nós que devemos converter-nos à verdade.
Quando tantas vozes pretendem alterar o Evangelho e atenuar suas exigências, permaneçamos na fé de Pedro. Quando o espírito do mundo semeia dúvida e divisão, permaneçamos na comunhão de Pedro. E, se tudo parecer vacilar, não vacile nosso coração: Cristo permanece, sua Palavra não passa e sua Igreja não será vencida.
Peçamos uma fé íntegra, humilde, eclesial e operosa; uma fé que ame o que Deus ordena, espere o que Ele promete e permaneça ancorada nas verdadeiras alegrias.
Senhor Jesus, cremos que sois o Cristo, o Filho do Deus vivo. Cremos em vossa Palavra, permanecemos em vossa Igreja e, unidos a Pedro, queremos ser fiéis a vós até o fim.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

