A MESA DA PALAVRA
XV Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 12 de julho de 2026
“O Semeador saiu a semear” (Mt 13,3)
- “Ó Deus, mostrais a luz da verdade aos que erram,para retornarem ao bom caminho, dai aos que professam a fé, rejeitar o que não convém ao cristão e abraçar tudo o que é digno deste nome” (Coleta).
Caros amigos, com a belíssima oração coleta deste Domingo, a Igreja já nos ofereceu a chave para uma compreensão mais profunda de toda a Liturgia da Palavra. Pedimos ao Pai que manifesta aos que erram a luz da verdade, para que possam voltar ao caminho, e suplicamos a graça de rejeitar o que é indigno do nome cristão e seguir o que lhe é conforme.
Trata-se do caminho da conversão, da restauração interior no amor ao Senhor. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14,23). A semeadura evangélica lança em nossas almas os tesouros de verdade e de vida que, uma vez convertidos, espalharemos também nós.
Antes toma sempre a iniciativa. É Ele quem procura o homem; é Ele quem ilumina os que se perderam; é Ele quem faz resplandecer a sua verdade sobre os nossos caminhos. Ele mesmo é a Luz da vida. «Jesus pronunciou estas palavras com a intenção de atrair a Si os seus ouvintes e de os estimular, assegurando que, se O procurarem, Ele curá-los-á» (J. Crisóstomo, Comentário ao Evangelho de Mateus, 45, 1-2).
Essa verdade não é uma ideia abstrata, mas a sua Palavra viva e eficaz. E a Palavra é Alguém que muda a minha vida e renova o meu modo de caminhar neste mundo. “No fundo, a verdadeira «Parábola» de Deus é o próprio Jesus, a sua Pessoa que, no sinal da humanidade, esconde e ao mesmo tempo revela a divindade. Deste modo, Deus não nos obriga a crer nele, mas atrai-nos a Si com a verdade e a bondade do seu Filho encarnado: Com efeito, o amor respeita sempre a liberdade” (Bento XVI, Angelus, 10-VII-2011).
- “Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim sem ter produzido o seu efeito” (Is 55,11).
Na primeira leitura, o profeta Isaías fala aos exilados na Babilônia, que, desanimados por não verem o seu desterro chegar ao fim, se perguntam se Deus irá cumprir a sua Palavra. O profeta recorre a uma imagem de extraordinária beleza para responder: «Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, assim acontece à palavra que sai da minha boca: não voltará para mim sem ter produzido o seu efeito» (Is 55,10-11).
Este versículo é, de fato, o cerne da primeira leitura, que nos remete ao coração do ensinamento de Jesus, esperança de Israel. Deus não compara a sua Palavra ao relâmpago, que ilumina por um instante e desaparece, mas à chuva, que penetra lentamente na terra e a transforma por dentro. Muitas vezes não percebemos imediatamente os frutos da graça; contudo, Deus continua trabalhando silenciosamente na história e no “castelo interior” de cada pessoa humana.
Vivemos numa época em que se mede quase tudo pelos resultados imediatos. Também na vida da Igreja poderíamos ser tentados a pensar que a Palavra de Deus perdeu a sua força, porque vemos tantos corações indiferentes, tantas famílias afastadas da fé, tantos jovens seduzidos por outras vozes.
O profeta, porém, dissipa esse desânimo. A Palavra de Deus nunca perde a sua eficácia. Ela pode agir lentamente, como a chuva que penetra silenciosamente na terra; pode ficar escondida durante anos, mas jamais deixa de realizar aquilo para que Deus a enviou.
O Salmista sabe que Deus não apenas fala; Ele visita o seu povo. Com ele continuamos a contemplar o que o profeta anunciava em nome de Deus. E louvamos a Deus reconhecendo a sua suave presença em nosso meio: “Visitais a nossa terra e a regais; cumulais as suas riquezas” (Sl 64[65],10).
A Palavra não é um discurso abstrato, mas uma presença que fecunda a vida. É o Verbo de Deus feito carne que habita entre nós. Toda a criação se torna um grande louvor quando se reconhece a ação do Criador: os campos se revestem de trigo, os vales se cobrem de flores, tudo canta de alegria. A natureza inteira torna-se um hino de louvor ao Criador. A terra responde à chuva; em uma liturgia cósmica todas as criaturas respondem à bondade de Deus.
III. “A criação espera ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8,19).
São Paulo continua a falar da salvação. O pecado marcou não apenas o homem, mas também toda a natureza. Com isto, o Espírito Santo nos ensina que as nossas escolhas têm consequências sobre todas as criaturas. Por isso, toda a criação geme, aguardando a manifestação dos filhos de Deus (Rm 8,19-23). Não somos apenas nós a esperar a redenção; o cosmos inteiro anseia pela restauração definitiva. O pecado desfigurou a harmonia do mundo, mas a graça começa a restaurá-la, até à plena recapitulação de tudo em Cristo.
A nossa salvação, portanto, não é um acontecimento apenas privado. Ao acolher a força redentora da Palavra de Deus, o homem se reveste de uma força libertadora, de sorte que a criação inteira começa a recuperar a harmonia perdida pelo pecado.
Cada homem e cada mulher que acolhe verdadeiramente a Palavra torna-se um sinal dessa nova criação inaugurada por Cristo. A santidade possui sempre uma dimensão eclesial e até cósmica.
- “Mas a semente que caiu em terra boa é aquele que ouve a Palavra, a compreende e produz fruto” (Mt 13,23).
Chegamos, então, ao Evangelho. Hoje começamos a escutar o capítulo 13 de São Mateus, em que Jesus narra a conhecida parábola do semeador. Vale a pena observar um detalhe. O Senhor não explica a qualidade da semente. Também não censura o semeador. A semente é sempre boa, e o semeador é generoso. Toda a atenção recai sobre os diversos terrenos.
Padre Antônio Vieira abriu o seu célebre Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real em 1655, com uma pergunta que continua a ecoar na Igreja: «Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?» (Sermão da Sexagésima, I).
O interrogativo não comporta uma dúvida ou desconfiança contra Deus. Trata-se, em primeiro lugar, de um exame de consciência da própria Igreja. Se a Palavra permanece a mesma, com a mesma força na semeadura, devemos então perguntar-nos que tipo de terra lhe estamos oferecendo. A pergunta não diminui a força da Palavra; antes, obriga-nos a examinar a qualidade do terreno que lhe oferecemos. O terreno é aquele que recebe a semente da Palavra: sou eu, é você, caro amigo, cara irmã.
E Jesus não pede apenas que escutemos a Palavra; pede que a compreendamos, isto é, que a acolhamos de tal modo que ela transforme a nossa vida. O fruto é o verdadeiro sinal de que a Palavra encontrou uma terra fértil.
Se observarmos com acuidade, Jesus nos ajuda a ver que a dificuldade de compreensão da Palavra nunca está em Deus; o problema pode estar em nós. O próprio Vieira responde que a esterilidade não procede da Palavra de Deus, pois ela «nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito» (Sermão da Sexagésima, III). A Palavra sempre age; mesmo quando não converte imediatamente, inquieta, interpela, chama à conversão.
Há o terreno endurecido, onde a Palavra sequer consegue penetrar. É o coração que se acostumou às coisas de Deus, mas já não se deixa tocar por elas. Quantas vezes podemos participar da Missa, ouvir o Evangelho, rezar as mesmas orações, sem permitir que nada mude em nossa vida!
Há o terreno pedregoso. A Palavra é acolhida com entusiasmo, mas faltam raízes. Surgem as dificuldades, as críticas, as provações, e tudo se perde. A fé não pode viver apenas de emoções; precisa criar raízes profundas na oração, na vida sacramental e na perseverança cotidiana.
Há ainda os espinhos. Jesus os identifica com as preocupações do mundo e a sedução das riquezas. Hoje poderíamos acrescentar tantas outras formas de dispersão: o excesso de informações, a agitação permanente, a dificuldade de permanecer em silêncio diante de Deus, a dissipação. Uma alma ocupada por muitas vozes acaba não ouvindo a única voz que dá sentido à existência.
Finalmente, existe a terra boa. Não se trata de um coração perfeito, mas a atitude humilde, disponível, capaz de ouvir, compreender e perseverar. A terra boa não produz frutos por ser melhor do que as outras; frutifica por se deixar trabalhar. Ouvindo Jesus explicar quem é a terra boa, não nos é consentido atribuir a esterilidade à Palavra, cuja força permanece intacta. É preciso antes perguntar pela disposição de quem anuncia mas, sobretudo, de quem escuta. A Palavra continua a mesma; o que mudou foi o interior do homem.
Um exame necessário exame de consciência. Essa reflexão interpela também a nós. Não basta admirar a beleza do Evangelho, nem elogiar uma homilia bem preparada. A verdadeira pergunta é outra: que fruto a Palavra está produzindo em minha vida? Ela tornou-me mais paciente? Mais misericordioso? Mais fiel à oração? Mais generoso no serviço? Mais disposto ao perdão? Se não produz fruto, não é porque lhe falte poder, mas porque ainda há em nós pedras a remover, espinhos a arrancar ou durezas a quebrantar.
Após constatar a ineficácia dos sermões e das pregações, Vieira acaba por chegar a uma conclusão exigente, à qual facilmente nos unimos: «Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir» (Sermão da Sexagésima, I). Eis uma grande lição para toda a Igreja: quem anuncia deve deixar-se julgar pela Palavra antes de anunciá-la aos outros. Deve antes ser o primeiro ouvinte daquilo que irá pregar a outrem.
Ao aproximarmo-nos agora do altar, a liturgia nos conduzirá da mesa da Palavra à mesa da Eucaristia. Aquele que falou nas Escrituras é o mesmo que se entregará sob as espécies do pão e do vinho. A Palavra prepara o Sacramento, e o Sacramento fortalece em nós a Palavra. Não podemos separar aquilo que Deus uniu na liturgia da Igreja.
Dentro de alguns instantes ofereceremos o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano. Neles se encontrarão a nossa vida, que o Senhor deseja renovar. Assim como a chuva fecunda a terra e a faz produzir o trigo que se tornará pão, também a graça de Deus quer fecundar o nosso coração para que produza frutos de santidade. Peçamos, portanto, ao Senhor uma única graça: ter as portas da alma abertas para acolher a semeadura do Verbo que transforma a nossa existência.
Que Cristo, o divino Semeador, encontre em nossa sexagenária Diocese, em nossas famílias, em nossas comunidades e, sobretudo, em cada um de nós, uma terra boa, capaz de produzir frutos abundantes para a glória de Deus e para a salvação do mundo. Com efeito, “a palavra de Deus é semente; o coração humilde é o campo; a caridade é o fruto” (cf. S. Antônio, Sermão do Domingo da Sexagésima).
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

